quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Moda e "Não-Moda"


Mulheres em Burma. Foto: Regula Beck

Minha observação empírica se concentra sempre no vestuário e suas possibilidades. No entanto, quando falo de roupa, de modo geral, as pessoas associam logo com MODA. Isso ocorre porque na nossa sociedade a forma de se vestir ficou muito proximamente associada com a moda. Mas moda e vestuário são conceitos distintos.

O filósofo francês Gilles Lipovestsky observou que o surgimento da moda foi possível em uma sociedade que começava a tomar gosto pelas novidades. Isso se deu, em especial na Europa por volta do século XV quando o comércio com Oriente se intensificou levando àqueles que tinham acesso aos bens estrangeiros, novas cores, novos tecidos, novos estilos.

Já as sociedades tradicionais são temerosas frente ao novo, e preferem manter outros critérios para o uso do vestuário e do adorno. Esses critérios delimitam o uso de determinados elementos para marcar status social, estado civil, pertencimento. O que eu poderia chamar de “Não-moda” é estática, mas isso não significa que não sofra mudanças ao longo do tempo. Já a moda, por seu conceito, é cada vez mais dinâmica.


Neste post, incluí algumas imagens com etnias que se vestem de modo tradicional, ou seja, não elegem o que vestem mirando-se no que está na moda, mas obedecem os padrões tradicionais de seu povo. Vou mostrar alguns casos que observei.


Indio Pataxo na Reserva proxima a Porto Seguro. Foto: Solange Mezabarba

Esta foto mostra um índio Pataxó na reserva próxima à Porto Seguro-BA. O interessante foi que, quando perguntei a ele como se vestia quando estava em sua casa, na cidade, ele me respondeu: “lá, eu me visto normal”. Ou seja, com este discurso percebo o esforço em manter viva a tradição de seu povo, porém, eles sabem que sua integração na cidade dependerá da forma de se vestir. Por “normal”, entendi que ele identificou o jeito da cidade como incorporado ao seu cotidiano. Vestir-se de modo “tradicional” era exceção. E assim, a boa e velha calça jeans e a camisa ocupam o guarda-roupas deste moço quando ele não está na reserva.


Mulher em Ollantaytambo. Foto: Solange Mezabarba

Mulher em Ollantaytambo (Peru). Seu traje colorido com estampas geométricas é o que ela veste em seu dia-a-dia. O chapéu também tem seu formato específico com desenhos que remetem à sua etnia. Mantem, portanto, a forma tradicional de se vestir.



Mulher em Otovalo. Foto: Solange Mezabarba

A mulher de Otovalo vendia lenços. Num primeiro momento, pensei que sua figura se tratasse apenas de um elemento turístico, já que Otovalo é o lugar para se fazer compras nas proximidades de Quito. No entanto, de volta a Quito, encontrei uma senhora otovaleña e seu marido. Muito tímida, pouco falava, mas mostrou-me seu traje, muito parecido com o da moça acima. Apontou seu colar de contas, como algo que fazia parte daquela indumentária. Mostrou-se muito segura daquela forma de vestir, mesmo quando circulava pelo centro da capital do Equador, disputando seu espaço com turistas e citadinos em seu cotidiano.


Vestidos mexicanos. Foto: Solange Mezabarba

Os huipils das mulheres mayas no México, já foram tema de outro post que publiquei. Percebi que as gerações mais jovens vêm abolindo o uso do traje considerado típico das mulheres mayas. Ultimamente algumas delas o associam com turistas ou mesmo mulheres mais velhas. No entanto, conversei com um senhor de origem maya que me garantiu que em seu pueblo, as mulheres da sua família, de todas as gerações ainda envergavam a roupa que é a marca da sua etnia. Na cidade, todas se vestiam conforme a moda, pois, trabalhavam para empresas que se estabeleceram na região próxima à Cancun.




Diferentes etnias em Burma. Fotos: Regula Beck

Em Burma, mais de 100 diferentes etnias convivem, e, cada uma, ainda mantem a sua tradição no vestir. Numa das fotos, as já conhecidas “mulheres-girafa”, ou Padaung. Parte desse povo migrou para a Tailândia, mas seu modo de vestir se converteu num atrativo turístico, especialmente, por conta do conhecido adorno que usa em volta do pescoço. Apesar das explicações míticas, hoje os aros são apenas um adorno que faz parte da sua tradição de vestir.

Minha pergunta aqui é: podemos dizer que o uso de jeans e camisa, mencionado como roupa “normal” pelo Pataxo, pode ainda ser associado ao conceito de moda? Ou será que estamos “inventando” uma tradição de vestir? Ou será que, vestir-se na moda é apenas ter a possibilidade de escolher?