terça-feira, 25 de maio de 2010

O Panama do Equador

Mulher artesã em Cuenca, Equador, tecendo uma peça. Foto: Dyan Galleani / Francisco Alegre.


Este post foi escrito com a colaboração da amiga chilena Dyan Galleani, que esteve comigo no Equador em 2009.

Nas minhas últimas idas ao campo – pelas ruas da zona sul carioca, percebi que os Chapéus Panamá entraram na ordem do dia. Não importa a idade ou a roupa que se está usando – o acessório parece combinar com tudo e com todos. Ainda não vi chapéus nas lojas da cidade, mas os camelôs, sempre muito ligados no que acontece na cidade, já expõem seus “Panamás” pelas calçadas do Rio de Janeiro.

O Chapéu Panamá, para nós, cariocas, se incorporou ao imaginário da cidade ao compor a figura do “malandro”. Terno de linho branco e o chapéu formavam a imagem típica desse personagem do início do século XX. A obra de Chico Buarque – A Ópera do Malandro – encenada tanto no teatro quanto no cinema, não deixa dúvida no figurino. Lá está o chapéu na cabeça do Max Overseas.

O curioso é que o “Chapéu Panamá” é um acessório de origem equatoriana. Ele vem das culturas que habitam as cidades de Cuenca e Montecristi.

Maquina da fábrica de sombreros de Cuenca. Foto: Dyan Galleani / Francisco Alegre

Cuenca é uma cidade histórica, a terceira maior do país, atrás de Guayaquill e Quito. Fica a mais ou menos meia hora de vôo da capital, Quito. Patrimônio da Humanidade, Cuenca começou a ser erguida ainda antes da chegada dos espanhóis, por povos locais, e mais tarde tomada pelos Incas. Os espanhóis a batizaram de “Santa Ana de los quatro rios de Cuenca”.

O Chapéu Panamá, originalmente se chama “sombrero de palla torquilla”, pois é feito com uma palha extraída de uma palmeira nativa. Eram os índios equatorianos que o utilizavam para se proteger do sol e do calor. O chapéu faz parte da tradição artesanal local, é feito à mão e suas tramas podem ser tão finas que são capazes de tornar o chapéu totalmente à prova d’água.

Em exposição na fábrica de chapéus, imagem de homem cortando a fibra usada para a confecção dos sombreros. Foto: Dyan Galleani

O chapéu faz parte da indumentária das mulheres Cholas, que vivem nesta região do país. Chola é a denominação para mulheres mestiças tanto no Peru quanto no Equador. A chola cuencana é uma mulher mestiça camponesa, e que se veste de forma peculiar. Elas usam blusas de algodão bordadas, saias de lã em tons fortes e uma manta de tecido fino, com desenhos denominados Ikat – ou feitos com o contraste entre as partes tingidas e não tingidas do tecido. Na cabeça, tranças e chapéu de palla torquilla, ou jipijapa, ou o nosso conhecido Chapéu Panamá.

Mulheres Cholas no mercado em Cuenca. Sua indumentária típica inclui o Chapéu Panamá. Foto: Dyan Galleani / Francisco Alegre.

O nome Panamá se deve ao fato de os trabalhadores do famoso Canal do Panamá terem utilizado o chapéu de palla trujilla durante o trabalho. O Equador exportou milhares deles durante as obras. O Canal do Panamá começou a ser construído em 1880.
O Panamá, nesta época era território colombiano. A companhia que iniciara o projeto faliu quatro anos depois do início das obras. Em 1903 o presidente norte americano Roosevelt negociou a intervenção do seu país para dar sequencia à obra, num episódio bastante polêmico que resultou na independência do Panamá onde já havia um movimento separatista anterior às obras do canal. Em troca, o controle do canal esteve nas mãos americanas até 1999. Na ocasião em que os Estados Unidos assumiram a obra, o Presidente Roosevelt foi fotografado usando o chapéu, numa imagem planejada que demonstrava a parceira e solidariedade com os trabalhadores locais. Isso ajudou a popularizar o acessório.


Loja da fábrica de chapéus em Cuenca. Foto: Dyan Galleani / Francisco Alegre

Comprar um chapéu original em Cuenca, no entanto, não é para muitos. O preço pode variar de 200 até 1000 dólares.
Mas os camelôs cariocas pedem bem menos – pode-se adquirir um por até vinte reais. Mas, claro, o Chapéu Panamá original, aquele feito com palla trujilla tem tramas e acabamento de alta qualidade.

Chapéu com características do Chapéu Panamá encontrado na escola de moda no RJ. Foto: Solange Mezabarba


Encontrei ao acaso um modelo na escola onde eu trabalho. A cara até pode ser de um legítimo Panamá do Equador, mas a finalização do objeto é muito diferente daquela observada nos modelos de Cuenca. A originalidade e a cópia – o modelo que não é o “verdadeiro”, mas compõe uma imagem... esse é um bom assunto para um outro post.