sábado, 27 de março de 2010

Calçadas de Copacabana


Av.Atlantica - vaca "Paraíso Tropical", peça da exposição Cow Parade realizada no Rio de Janeiro, uma alusão à novela de Gilberto Braga exibida na TV Globo, e que se passava no bairro de Copacabana. Foto: Solange Mezabarba

O bairro de Copacabana é talvez o lugar carioca mais conhecido fora do Brasil. É uma espécie de imagem ícone da cidade, e talvez do país. A Avenida Nossa Senhora de Copacabana, uma das principais artérias de circulação no bairro carioca, é uma área de ferrenha disputa pelo espaço público - tanto nas ruas, quanto na área das calçadas. As calçadas podem ser um ambiente “perigoso”, uma vez que, em muitos casos, as pessoas olham para frente, apressadas, em espaços estreitos, esbarrando inevitavelmente em quem vem pela frente.

Observa-se em Copacabana enorme diversidade – idades diferentes, nacionalidades diferentes, origens sociais diferentes. A avenida em questão é um local de passagem, onde velhos, jovens, empregadas domésticas, patroas, cariocas, estrangeiros, nordestinos, turistas, trabalhadores do comércio, moradores consumidores e não –moradores consumidores se cruzam, se esbarram sem se ver.

De acordo com as recomendações do antropologo J.G Magnani da USP, um pesquisador deve ter um caminhar “mais lento do que o usuário e mais regular do que o passeante” (Magnani e Torres,Na metropole: textos de antropologia urbana. São Paulo: Fapesp,1996;37). Mas em Copacabana, o bairro escolhido, o andar espaçado e atento é sempre prejudicado pelo fluxo frenético de pedestres. O andar apressado encontra sempre um caminho obstruído por idosos que se movimentam devagar, alunos com seus pais em hora de saída dos colégios, donas de casa a mirar vitrines. O andar mais lento se interpõe entre os apressados e seu destino. Isso tudo num módico espaço de calçada, que ainda, não raro, é dividido com camelôs, moradores de rua, pessoas que panfletam, eventuais obras da prefeitura.


Foto: Solange Mezabarba


À noite as calçadas da N.Sa. de Copacabana continuam sendo o cenário da diversidade. Mas agora, além dos tipos já mencionados, juntam-se na disputa pelo espaço os travestis, as garotas de programa sozinhas ou acompanhadas de turistas estrangeiros, turistas que saem em grupo para jantar próximo ao hotel. Copacabana, é bom lembrar, ainda é o bairro carioca com maior número de hoteis no Rio de Janeiro.

O filósofo francês Michel De Certeau define o bairro como uma parcela do espaço urbano onde os usuários daquele espaço se sentem reconhecidos. Nesse sentido, o vestuário se coloca como um importante sinalizador identitário do pertencimento ao local. Em Copacabana, apesar de ser um bairro com tanta diversidade, o que se observa em termos de vestuário na área por onde circulei, não parece ser tão variado assim. Roupas de malha, calças de lycra coladas ao corpo, camisetas, vestidos floridos de tecido leve.

Numa visão panorâmica do estilo de vestir de quem circula pelas ruas de Copacabana, percebe-se pouco esmero na produção imagética, ou uma estratégia de vestir menos elaborada. Vê-se poucos acessórios, quase nenhuma maquiagem, profusão de chinelos de borracha, pouca preocupação com a moda, enfim, roupas que parecem diferir pouco daquelas para o uso doméstico. Afinal, descobri em minha dissertação de mestrado, que a roupa feminina para uso doméstico é sempre aquela que prioriza o conforto físico do corpo e a despreocupaçao com o estilo. As roupas que observei nas ruas de Copacabana, aparentemente, não custaram muito, e não mereceram uma produção para que parecessem menos desgastadas. Ao contrário. Parece haver uma estética do “vestir-se bem à vontade” - uma categoria que pressupõe, antes de tudo, o conforto. E por conforto, entendemos uma produção imagética despreocupada, sem as “amarras” das roupas formais, dos saltos altos, do penteado e da maquiagem que tomam tempo.

Escuta-se muito sotaque estrangeiro pelas ruas, mas eles, os estrangeiros e estrangeiras, parecem bastante adaptados ao modo carioca de produzir (ou não-produzir) a sua imagem. Em conversa com Lynn, uma norte americana de Nova Iorque, pude ter certeza disso. Ela me disse que o que mais gosta no Rio de Janeiro é a possibilidade de se sentir à vontade com aquilo que veste: “a gente pode sair na rua vestida de qualquer jeito”, disse a americana. Por “qualquer jeito”, entenda-se, uma produção descomplicada.




Toda essa diversidade interfere no reconhecimento de quem mora, de fato, no bairro, de quem está apenas visitando, de quem está só de passagem, de quem vem apenas para trabalhar. Isso não ocorre, por exemplo, no bairro do Flamengo, nas suas ruas principais, a Marques de Abrantes e a Senador Vergueiro. Em ambas se percebe facilmente o andar de quem está perto de casa, a familiaridade com os comerciantes locais, uma forma pacata de interação não focalizada. Interação não-focalizada, de acordo com o canadense Erving Goffman, é aquela que resulta apenas da co-presença no mesmo espaço público. O morador do Flamengo é mais facilmente reconhecido. Em Copacabana, esta interação é difusa, nunca se sabe com quem estamos interagindo, o que esperar do interlocutor.

Os trajes de banho são bem tolerados pelas ruas, mas, pode-se observar que na Nossa Sa. de Copacabana, que fica paralela à praia, biquínis são bem tolerados quando com a "proteção" de cangas, ou shorts sem camiseta, ou saídas de praia (essas, trajes específicos para “sair da praia”, quase não se vê). Na orla, no calçadão ao lado da praia, biquínis de todos os tipos são bem tolerados, mesmo aqueles considerados mais “ousados”. Principalmente nos finais de semana, e dias mais quentes. Homens circulam tranquilamente com suas sungas, com e sem camisa pelas ruas do bairro. Mulheres apenas de biquíni na Nossa Senhora de Copacabana e outras ruas mais distantes do mar são menos toleradas. Pode-se observar o olhar de reprovação dos transeuntes ao cruzar com uma mulher despojada de "proteção" têxtil da cintura para baixo. Mas não é difícil, nos dias mais quentes, encontrar quem se aventure a tanto. O controle social, no entanto, não passará de alguns olhares reprovadores em direção à “infratora”. Mas, em geral, percebe-se que são mulheres estrangeiras (turistas), ou que estão apenas de passagem. Moradores de Copacabana são tolerantes com os visitantes, afinal, eles são muitos e permeiam as ruas do bairro durante o ano inteiro. Fazem parte do cenário local.

Copacabana é o bairro carioca com o maior número de idosos. Esta observação já foi alvo de análise para alguns antropólogos, entre eles, Gilberto Velho e Myriam Lins de Barros. Num olhar generalizado, as mulheres acima de 60 anos parecem se descolar da moda. Outros critérios parecem ser adotados na escolha do vestuário. Percebi que poucas aparecem pelas ruas usando calça comprida jeans. Usam tecidos flexíveis, bermudas jeans, vestido folgados e fresquinhos para suportar as altas temperaturas do Rio de Janeiro.

Gilberto Velho, em seu livro A Utopia Urbana, de 1999, publicado por Jorge Zahar Editor, colheu depoimentos de muitos moradores do bairro de Copacabana. Um dos motivos mencionados pelos entrevistados como sendo importantes para a decisão de optar por viver ali, foi a forma como os controles sociais podem ser menos rígidos no bairro. Talvez isso se reflita nas roupas que vemos pelas ruas de Copacabana, um bairro de diversidade, com pessoas que andam pelas ruas se sentindo como se estivessem em suas próprias casas.