quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Chapéus e Tecelãs em Chincheros

Foto: Solange Mezabarba - Mulher e criança na estrada entre Arequipa e Chivay - Peru

As mulheres das diversas etnias que habitam o território do Peru se diferenciam por seus chapéus. O chapéu não é somente um acessório, mas um objeto que marca etnia, região de origem, a mulher casada e a solteira. Não vi homens tipicamente vestidos, como vi mulheres, pelas ruas das pequenas cidades peruanas que visitei, o que, como observadora, me leva a crer que as mulheres são as grandes guardiãs das tradições desses povos pré-incas.

Os chapéus foram trazidos pelos espanhóis, e substituíram outras formas de diferenciação étnica. Entre os cabañas e collaguas, por exemplo, a deformação craniana era o que os diferenciava. Cabañas deformavam o crânio no sentido horizontal, gerando uma cabeça “chata”. Collaguas, na vertical. O critério eram os deuses que eles adoravam, representados pelas montanhas. A deformação craniana seguia o formato das montanhas adoradas. A mulher da foto, por seu chapéu, aparentemente, pertence à etnia collagua. Usa um modelo branco, adornado com uma fita.

As mulheres de Chincheros que fizeram uma demonstração de como produzem seus tecidos, usam outro tipo de chapeu. Os chapéus das mulheres de Chincheros são típicos das mulheres quéchuas. Já a senhora da foto do post anterior usava um chapéu que deveria ser a marca das mulheres da etnia cabañas, fundo preto, bordado com motivos coloridos.

Mas, deixemos os chapéus, e vamos à produção de tecidos, que foi o que eu prometi no último post.

Fotos:Solange Mezabarba - todas as imagens foram feitas numa comunidade de tecelãs em Chincheros - Peru.


As mulheres usam as lãs dos pêlos das lhamas, ou das alpacas. Uma raiz local chamada Sacda é usada para o clareamento das lãs. A raiz é ralada e misturada à água morna numa tigela, onde mergulham a lã em seu estado natural. O enxágüe é feito em outra tigela com água limpa e fria.



A eficiência da Sacda como alvejante é demonstrada pela tecelã na fotografia. A lã então está pronta para a próxima etapa: a fiação.





Após a fiaçao, inicia-se o processo de tingimento. Os corantes são elaborados com matérias-primas locais, retiradas de plantas e pequenos animais, como a cochonilla, uma espécie de praga que ataca os cactus locais. A cochonilla fornece a cor bordô. O mutuy, da família das acácias fornece a cor amarela, o milho negro (maiz negro), o roxo.







As plantas e mesmo a cochonilla depois de raspada, vão ao fogo, numa panela com água, e são deixadas lá para reduzir. O sal é usado como fixador.





Os fios estão prontos para para se tornarem tecidos.





Observei as mãos muito hábeis a traçar desenhos em aparelhos artesanais de tecelagem. Uma espécie de "agulha" feita com osso de alpaca é um instrumento para auxiliar na confecção dos desenhos etnicos.







A rapidez do processo impressiona. Os desenhos vão surgindo como que espontaneamente. A eficiência do trabalho permite que um pequeno grupo de mulheres produza uma grande quantidade de mantas, gorros, blusas, casacos. Só mesmo acompanhando o trabalho dessas mulheres para entender que a profusão de tendas repletas de artigos de alpacas e lhamas que pontilham essa região do país acompanham uma tradição artesanal passada de geração para geração. Eu comprei um casaco de lã de alpaca. Além de muito bonito, com seus desenhos coloridos, o material é levíssimo, quentinho e os preços são bastante baixos. Sem contar que, sinto como se tivesse trazido comigo, na bagagem, um pouco da tradição peruana.