quinta-feira, 1 de julho de 2010

Roupas com consciencia


Corantes naturais usados na produçao artesanal da comunidade de Chincheros - Peru. Foto: Solange Mezabarba

No início do ano entrei em contato com o Professor Daniel Miller da University College London para saber sobre a pesquisa que vem empreendendo sobre consumo do jeans em diversos países. Em sua resposta ele mencionou a categoria “jeans ético”. Numa rápida pesquisa de escritório, verifiquei que algumas marcas já mostram preocupação em elaborar um produto considerado ético, entre elas, a popular Levi’s , e o sofisticado nome de Carlos Miele.

“Consumo ético”, “consumo consciente”, “consumo sustentável” são expressões que são cada vez mais pronunciadas por consumidores que se esforçam por mostrar o quanto se preocupam com o planeta. O antropólogo argentino Nestor Canclini, em seu livro “Consumidores e Cidadãos” (publicado no Brasil pela Editora UFRJ) faz algumas observações importantes acerca do tema. É importante a noção de que o consumo também nos possibilita a atuação como cidadãos, ou seja, ao consumirmos determinados itens, de determinadas maneiras sinalizados nossas opiniões, marcamos posições políticas e mostramos o nosso engajamento em causas sociais. Também é importante a noção de que a globalização dos mercados cria uma relação em que o que consumimos aqui e agora, afeta outras pessoas em outras localidades.

A mídia, num esforço até pedagógico, vem se encarregando de informar as pessoas sobre a importância do descarte consciente, da reciclagem, da economia de recursos não renováveis, da preservação da água, da preservação do meio ambiente, da economia solidária, do consumo de alimentos saudáveis. Mas, e o vestuário? Como o consumo das roupas vem sendo pensado pelos usuários em seu papel de “consumidores conscientes”? Quando o Professor Miller mostrou seu interesse pelo tema dos “jeans éticos”, recorri aos técnicos do Cetiqt para entender o que tem sido feito na indústria têxtil brasileira para incluir o vestuário na agenda da sustentabilidade. As respostas que obtive, mais me confundiram do que esclareceram. O que passa é que há uma confusão muito grande sobre os critérios para tornar uma peça considerada ética ou sustentável. Assim, o técnico com quem conversei colocou algumas questões interessantes. Ético sob que ponto de vista? Isso porque operacionalmente eles mesmos se deparam com dilemas. Pode-se pensar em tecidos éticos do ponto de vista do plantio de matérias-primas para a produção, do processo de produção sem efluentes químicos, do descarte, da conservação, dos corantes. O processo de produção que privilegia uma vantagem ecológica pode incorrer em uma desvantagem. Ou seja, o uso de determinadas matérias-primas consideradas biodegradáveis pode demandar o gasto maior de água na produção. Há, então, que se fazer opções. O que podemos chamar de tecido ético? Aquele que dura mais e por isso não exige a reposição constante? Bem, estamos falando de moda, e a moda pressupõe a reposição constante no guarda-roupas. Ou será que o tecido ético é o que é feito com matéria prima biodegradável e que pode ser descartada como um saco de papel sem qualquer peso na consciência?
Consumir é efetuar escolhas, e o modo consciente de consumir vem provocando muitas dúvidas. A Revista Época em sua edição de outubro de 2007 publicou uma matéria intitulada “como é difícil ser verde”, onde discorre sobre a dificuldade dos europeus em conciliar o que consideram “politicamente correto”, com seus hábitos de consumo no cotidiano, seu estilo de vida, e seus gastos diários. De fato, não é nada fácil. A matéria faz alusão, por exemplo, a alguns conflitos morais, e ilustra com um caso. Alguns supermercados começaram a etiquetar alimentos que foram transportados por avião, e portanto, deram a seus clientes a oportunidade de escolher o alimento que prejudicou menos o meio ambiente. Mas, neste caso, produtores africanos seriam prejudicados, o que, indiretamente, contribuiria para o aumento da pobreza naquele continente. Por conta de dilemas como este, segundo a matéria, para manter sua imagem de consumidor ético e continuar com o mesmo estilo de vida e sem conflitos de consciência, muitos europeus mentem.

Outra matéria publicada na Revista Veja de outubro de 2007, traz na imagem de capa o modelo da consumidora consciente. Ela usa calça de algodão orgânico feita a mão, sandálias com sola de pneu reciclado, camiseta de fibra reciclada, bolsa de fibra natural, tem um só filho que usa fralda de pano e consome alimentos orgânicos. Conversei com uma amiga italiana especificamente sobre o caso das fraldas. Ela me contou que viajou com o filho para a Itália quando o menino tinha apenas um mês. Isso só foi possível, segundo ela, por causa do “grande invento da fralda descartável”. Ou seja, a mudança definitiva para a fralda de pano traria às mães alguns inconvenientes aos quais elas não estão mais acostumadas. Ou seja, mudar a forma de consumo pode implicar mudanças mais profundas no comportamento e estilo de vida. E isso não é nada fácil. O consumo de roupas não é o resultado de um só critério, de uma só forma de consumir. Existem muitas implicações que pesam na nossa escolha final. O consumo ético, sustentável, consciente do vestuário é só uma das formas, e, por aqui, ainda encontra pequena adesão.

No próximo post mencionarei duas possíveis formas de consumo consciente no que se refere ao vestuário.

Um comentário:

  1. Adorei o questionamento. Sim, é muito difícil ser totalmente consciente e responsável ecologicamente. Os processos usados para possibilitar a categoria 'jeans ético' muitas vezes vão mesmo demandar mais recursos e gasto energético. Fora o exemplo da roupa que você deu, por exemplo. "Politicamente" corretíssima, mas eu sei que eu não me sentiria bonita - ou confortável - usando este tipo de roupa. Já enfrento esta 'divisão': não como carne vermelha e a maior parte das brancas mas... uso bolsa, sapato e cinto de couro. É uma dose cavalar de egoísmo, provavelmente, mas isto ainda não consegui resolver.

    O caso das fraldas é um exemplo e tatno. Não precisa nem pensar só nas mulheres que cruzam o Atlântico de avião: vamos pensar nas que trabalham o dia inteiro e largam o filho em creche. Ou nas que tem mais filhos pra cuidar. Fralda de pano demanda um tempão - e muita água! E muito sabão em pó! E muita energia elétrica para passar!!

    Avise quando postar os novos textos sobre este assunto.

    ResponderExcluir