terça-feira, 13 de julho de 2010

Guarda-roupa Zero (materia da L'Officiel Junho/2010)



Imagem da materia publicada na Revista L'Officiel (junho/2010)

Este post teve a colaboração da amiga jornalista Flávia Mendonça, que escreve para a Revista L’Officel (entre outras publicações).

Flávia me abordou para conversarmos sobre o tema que iniciei no meu último post. Pensando no consumo consciente do vestuário, a jornalista me apresentou duas propostas. Uma delas, o blog The Great American Apparel Diet que propõe a compra zero de novas roupas durante um ano. O blog é usado como “confessionário” pelas seguidoras do movimento para que troquem informações sobre a experiência. A matéria publicada pela L’Officiel diz o seguinte: “segundo uma das fundadoras do diário, a americana Sally Bjornsen, o objetivo da dieta é que as participantes tentem refletir e entender o que acontece quando ficam tanto tempo sem nada novo no guarda-roupa. ‘Muitas delas antes de participar do projeto, gastaram grande parte do seu tempo planejando e preparando gavetas. E boa parcela dessas preocupações são motivadas, normalmente, pelo que elas querem e não pelo que realmente precisam’”.
A segunda proposta é passar 365 dias com o mesmo modelo de vestido. Esta idéia foi lançada em Londres, em maio de 2009 por Sheena Matheiken e Eliza Starbuck, e se chama The Uniform Project.




A matéria de Flávia foi publicada na edição de junho de 2010 na Revista L’Officiel, e, evidentemente, editada. Aqui, reproduzo na integra, a entrevista que fizemos para dar suporte à sua matéria.

Flavia: Por que você resolveu estudar o consumo de mulheres de classe média da zona Sul do Rio de Janeiro?

Solange: Flávia, esta é uma longa história. Trabalhar com a linha de pesquisa “consumo” dentro da Antropologia me pareceu um caminho natural, já que venho da área de marketing e já trazia comigo uma larga experiência em empresas. Dentro da academia, no entanto, tudo começou com o luxo. O projeto inicial para a minha dissertação de mestrado seria investigar a idéia de luxo entre a classe média carioca. Naquela época (entre 2004 e 2005) havia estudos recentes sobre a expansão do luxo para os segmentos médios da população na França e nos Estados Unidos. Por aqui começaram a surgir publicações periódicas específicas sobre luxo, onde se percebia certa “pedagogia” sobre os usos dos produtos, como que para novos entrantes neste mercado. De lá prá cá muitas matérias foram publicadas sobre o comércio de bens considerados de luxo na cidade de São Paulo, principalmente por conta a inauguração da nova Daslu, em 2005. A curiosidade sobre o tema luxo entre os cariocas da classe média me levou a uma pesquisa inicial – realizei entrevistas em profundidade com cerca de 30 pessoas. Cheguei a conclusão que o luxo entre os cariocas possuía inúmeras representações, mas muitas delas, negativas. O uso ostensivo de marcas e grifes consideradas de luxo, por exemplo, não eram bem visto pelo grupo. O luxo, que eu chamaria de “positivo” para este grupo de pessoas, tinha relação com os bairros em que viviam – todos da Zona Sul do Rio de Janeiro -, e com o estilo de vida (sair do trabalho e ir à praia no verão, poder viajar para um país estrangeiro nas férias, comer bem, entre outras coisas). Assim, ficou uma pergunta: se essa classe média não se interessa por ostentar marcas e grifes como representações do luxo tal qual a mídia repercute, o que lhes interessa em termos de vestuário? Dada a estreita relação das mulheres com o vestuário achei que seria mais proveitoso dali em diante focar a minha pesquisa neste gênero.

Flávia: Pode falar um pouco sobre como tem sido essa experiência?
Solange: Já que eu deveria falar sobre o consumo de vestuário entre as mulheres da classe média carioca, decidi visitá-las e conhecer de perto seus armários e como se relacionavam com as roupas. Assim, pude esboçar algumas classificações sobre critérios de escolha e formas de uso. Além disso, comecei a empreender caminhadas pelas ruas e visitas a algumas lojas de bairros da Zona Sul localizados próximos à orla – Leme, Copacabana, Ipanema, Leblon – fazendo preciosas anotações sobre o papel da roupa no esquema de sociabilidade dos bairros escolhidos.


Armario de uma entrevistada de 62 anos, moradora de Copacabana. Foto: Solange Mezabarba

Flávia: O que já deu para notar dessa pesquisa? Como agem e pensam essas mulheres?
Solange: Flavia, não há uma resposta única para esta pergunta. De início é preciso que tenhamos em mente que o consumo de roupas tem uma estreita relação com o que se quer comunicar sobre si. Mas o indivíduo não atua sozinho nas suas escolhas, então essas decisões se darão em torno das interações cotidianas que as pessoas fazem. Somados a isso aparecem o gosto pessoal, as formas de acesso, as disposições pessoais. Por exemplo, quando perguntadas sobre o que escolhem quando precisam ir a uma cidade como São Paulo. As respostas variam de acordo com o que cada mulher espera das interações que teriam na capital paulista. Para uma reunião de negócios, onde se espera ser bem sucedida, há um cuidado todo especial na escolha, e a expectativa de que o ambiente a ser visitado pede maior formalidade do que ela está acostumada por aqui. Inconscientemente essa mulher sabe que a roupa “errada” pode representar um risco para a sua reputação profissional. Já a estudante que precisou passar uma temporada na USP fez questão de dizer que queria ir com as suas roupas bem informais, ou aquelas “hippies de boutique” como ela mesma classificou, para reafirmar a diferença identitária como uma carioca entre paulistanos, e assim comunicar e reafirmar a sua origem. Outra, que iria ao chá de panela da amiga em São Paulo se sentiu impelida a escolher uma roupa mais formal, coisa que não faria num chá de panela aqui no Rio. Ao chegar lá, percebeu que a sua escolha havia sido equivocada. Sentiu-se deslocada com aquelas mulheres paulistanas vestidas bem à vontade ao seu lado. Por isso te digo que o tempo todo estamos considerando as nossas interações diárias e controlando as nossas impressões. Usamos para isso a nossa percepção sobre o que os outros esperam ou deveriam esperar de nós, e nem sempre queremos agradar. E nem sempre acertamos. Valemo-nos do consumo para isso. Querer acertar, na minha opinião, é o que especialmente rege a escolha do vestuário entre essas mulheres da classe média.

Flávia: No ano passado surgiu o Uniform Project - blog em que uma indiana usa o mesmo vestido o ano todo com diferentes acessórios para arrecadar fundos para uma instituição de ensino em seu país. Você acha que a mulher brasileira é capaz de repetir o mesmo modelito diversas vezes, mudando apenas os acessórios, pois ela adquiriu uma consciência e consumo cujos valores estão usar/comprar uma quantidade menor de roupas?
Solange: Depende. Creio que no Rio de Janeiro, por exemplo, usar um vestido básico com diferentes acessórios durante um ano, não seja assim tão complicado. Não o mesmo vestido. Já em São Paulo, as interações são diferentes, e isso afeta o modo como as pessoas se vestem, mais elaborado do que em geral se vê no Rio. Talvez lá fosse mais difícil. Mas se eu descobrisse uma mulher brasileira agindo como a indiana, não pensaria de imediato em consciência de consumo. Este é um movimento ainda muito pequeno entre as mulheres brasileiras, e, principalmente, confuso. Por exemplo, entre as minhas alunas da pos-graduação (moças com alto nível de escolaridade) já ouvi sobre o rodízio de roupas – um grupo de amigas que têm o corpo parecido compra uma dada quantidade de peças, e realizam trocas entre elas. Mas não vejo esta atitude como parte de um projeto de consumo com consciência, e sim, por motivos econômicos, ou seja, para aumentar suas opções gastando menos. Muitas brasileiras ainda estão na fase das experimentações (da moda, do luxo, das marcas) e o consumo consciente (que não deixa de ser também um critério de escolha), ainda é uma prática restrita a um pequeno grupo de mulheres.

Flávia: Outro sinal interessante é o Great American Apparell Diet - um blog no qual pessoas se comprometem a não comprar roupas por 1 ano e lá relatam as dores e as delícias dessa decisão. Você acha que as brasileiras são capazes de parar de comprar roupas e acessórios de moda por um ano em prol de uma causa?
Solange: Comprar roupas, para as mulheres, envolve muitos aspectos, como o lado lúdico de experimentar novidades nas cabines, o prazer de olhar as vitrines e se imaginar com determinada peça, o auto-presente que pressupõe uma compensação por alguma obrigação realizada com sucesso, ou mesmo a busca por uma imagem adequada a determinada situação. Pensar em ficar um ano sem comprar roupas, seria abrir mão desses momentos de prazer, e correr o risco de se ver inadequada numa dada ocasião. Por exemplo, uma moça com quem conversei havia se casado recentemente com um homem bem mais velho. Sentiu-se por isso impelida a comprar roupas que fossem mais adequadas para freqüentar eventos sociais na companhia do seu marido, já que em seu armário predominavam minissaias jeans, calças justas e de cintura baixa, blusas baby looks, batas, enfim, roupas que se adequavam ao estilo de vida que tinha antes de se casar. Ou seja, um novo fato em sua vida desencadeou nela a preocupação com novos critérios de escolha para suas roupas. E sua inquietação se transformou em experimentações. Imagina se ela estivesse comprometida com um projeto como esse durante este período da sua vida?
Por outro lado, deixar de comprar roupas durante um ano levaria essas mulheres a usar a sua criatividade para inventar diferentes composições com aquilo o que possuem dentro do armário. Acho que, dependendo da causa, algumas brasileiras seriam sim capazes de enfrentar o desafio. O fato de haver o blog pode criar nelas a sensação de que não estão sozinhas, e isso é muito importante para levar adiante o projeto. Mas não me surpreenderia se, passado um ano, muitas delas se “presenteassem” por terem vencido o desafio, renovando o armário de uma só vez.

Flávia: Você acredita que existe uma preocupação ética ou social no consumo dessas mulheres que está pesquisando. Quais seriam esses valores?
Solange: Flavia, noto que o discurso sobre consumo sustentável está cada vez mais forte entre as mulheres da classe média. Mas percebo também muitas dúvidas sobre como pôr em pratica esses valores. Em geral elas falam sobre o “descarte consciente”, mas raramente sobre “consumo consciente”. Explico. Parece que todas sabem que precisamos separar o lixo, devemos pensar em reciclagem, não desperdiçar água no dia-a-dia. Mas poucas se dão conta de que os bens são produzidos de alguma maneira, e uma vez produzidos, estão no ambiente. Há uns meses um antropólogo inglês me pediu informações locais sobre o consumo de “jeans ético”. Comecei por pesquisar a produção de tecidos considerados “éticos” para entender melhor o conceito. Deparei-me com inúmeras dúvidas por parte dos técnicos que consultei: os tecidos “éticos” são os que pressupõem economia de água na produção, ou será que são aqueles que usam material reciclado, mas que precisam de água em abundância em seu processo produtivo? O tecido classificado como biodegradável, ou seja, considerado bom para o descarte, pode precisar lançar mão de tratamentos químicos, o que implicaria a circulação de resíduos químicos no ambiente. O que é mais vantajoso do ponto de vista ecológico? Por fim, será que o jeans considerado “ético” deveria ser aquele feito para durar muito e evitar a compra freqüente, ou aquele mais barato produzido por uma comunidade de costureiras do interior demonstrando preocupação social? Entre as consumidoras a confusão é ainda maior. Na verdade, o que eu posso afirmar é que, embora haja uma preocupação em manter o discurso do “consumo sustentável”, na prática, o que observo é que, para as mulheres que pesquiso, esse critério de escolha ainda não chegou à categoria vestuário.


Jeans - muito presente nos armarios, mas a preocupaçao e maior com o estilo do que com a sustentabilidade. Foto: Solange Mezabarba


Flávia: Você conseguiria viver 365 dias usando apenas um modelo de vestido? Se sim, como faria?
Solange: Um mesmo modelo, ou um mesmo vestido? Um mesmo modelo creio que seria possível. Cores neutras e diferentes acessórios poderiam aliviar o meu cansaço visual. Mas admito que não é fácil. Uma vez viajei pela Europa por três meses, visitando diversos países com uma pequena mala. Trazia poucas roupas (e quase nenhum acessório) para facilitar o meu deslocamento. Ao chegar em casa, me desfiz de todas elas, pois não as agüentava mais. Imagine um modelo só! Portanto, talvez, ao final de uma experiência como essa me sentisse um pouco estressada com a energia empregada para adaptar o modelo a diferentes ocasiões, temperaturas, interações. Por outro lado, o processo cotidiano de escolha se torna mais simples. O mesmo vestido, jamais. O Rio de Janeiro, onde vivo, é demasiadamente quente em determinadas épocas do ano.

Flávia: E ficar um ano sem comprar roupas? Quais são as suas motivações no ato de comprar uma peça de roupa?
Solange: Pessoalmente sou muito apegada às minhas roupas. Demoro muito a me desfazer delas. De vez em quando “ressuscito” uma ou outra peça que estava esquecida no armário. Mas por tudo o que já expus pra você, como mulher, devo reconhecer que o ato de comprar também me proporciona prazer em alguma medida. Quase sempre me sinto motivada a comprar roupas em alguma ocasião especial. Por exemplo, quando viajo, gosto de levar roupas novas. Quando volto de viagem, gosto de trazer roupas novas. Quando inicio um trabalho novo gosto de comprar peças novas. Mas creio que conseguiria sim passar um ano sem comprar roupas. Tenho um bom acervo em casa, será preciso apenas uma dose extra de criatividade.

Um comentário:

  1. Solange, também sou um pouco apegada a algumas peças. Algumas ainda são do tempo em que era 2 números menor. Ficam ali pra quem sabe me inspirar?

    Quanto à preocupação com roupa pro trabalho é real! Os que vivem no mundo corporativo sofrem. Eu como profissional liberal também. No consultório e também na área de pesquisa, eu não posso ousar muito, porque o foco é quem está na minha frente.

    Imagina, na clínica de psicologia! Ficar um ano sem trocar a peça seria complicadíssimo. Viraria questão para análise. E não só de quem atendo, rsrsrsrs

    beijos

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