sexta-feira, 14 de maio de 2010

Casacos nas vitrines de outono no Rio de Janeiro


Inverno na Suiça. Isso sim é que é frio. Haja casacos! Foto: a autora do blog em Gstaad (Suiça),foto de Andreas Stuker.

Quem reparou primeiro foi a minha amiga Thays. No Facebook ela sentenciou, usando uma frase parecida com:“não sei pra quem as lojas estão vendendo tanta roupa de frio”.

Os habitantes do Rio de Janeiro vivenciaram um dos verões mais quentes das últimas décadas. Diziam os especialistas que só o verão de 1984 superou o de 2010 em temperaturas. Não me lembro do verão de 1984, mas tenho a sensação de que o de 2010 ainda lança seus efeitos outono afora.

O outono do Rio de Janeiro, na minha opinião, é a estação do ano mais bonita. A luminosidade favorece àqueles que se aventuram a fotografar a cidade, as praias não ficam tão lotadas, e o calor... bem... é claro que nada se compara aos 42 graus do verão carioca, mas neste outono, as temperaturas durante o dia podem ser conferidas nos relógios digitais ao longo da cidade – variam entre os 25 e os 30 graus. Ou seja, ainda assim, faz calor.

Pelas ruas observo o caminhar das mulheres, e como estão vestidas. Blusas de alça, camisetas, shorts, bermudas, vestidos leves. O vestuário das ruas cariocas de outono não difere muito daquele do verão, ao menos durante o dia. À noite podemos apreciar o desfile de blusas com manga comprida, casacos jeans, cardigãs ou casaquinhos de tricô.

Em minhas visitas à casa das mulheres com quem converso sobre a minha tese, algumas vezes encontro em seus armários casacos pesados, mas elas logo justificam: “é para quando eu viajo para o exterior”. Viagens ao exterior é uma das formas de consumo que caracterizam as mulheres dos segmentos médios do Rio de Janeiro. Portanto, a presença de casacos de lã, ou parcas forradas, luvas e outros apetrechos de frio é compreensível em seus armarios.


Armario de uma mulher, 40 anos, moradora da Zona Sul do RJ. Reparem no número de casacos! Foto: Solange Mezabarba

Voltando ao que nos oferecem as lojas de roupas femininas neste outono. Minha amiga tem razão. O que vemos parece incompatível com o que se observa nas ruas.


Vitrine de uma loja em Copacabana. Roupas elegantes. Dentro da loja, os casacos mais pesados. Foto: Solange Mezabarba

Nesta semana estive numa loja de Copacabana, onde sempre compro peças de vestuário para mim. Sua vitrine não diferia muito de outras que encontrei ao longo do caminho. Havia casacos de toda sorte, alguns deles feitos de lã, forrados. Não há como negar a beleza e o bom acabamento das peças. Confesso até que fiquei tentada a comprar um deles. Quando, após me identificar como pesquisadora e antropóloga, fiz a observação sobre os casacos e a temperatura carioca, a gerente entendeu que eu estava criticando ou fazendo uma observação negativa sobre a loja. Por isso, fez questão de enfatizar que as vendas estavam indo muito bem, obrigada. Mas, quando insisti no meu ponto, ela colocou alguns argumentos para defender a venda dos seus produtos: a temperatura caiu nas últimas semanas, houve o dia das mães, houve uma cliente (uma cliente!) que comprou para viajar para Curitiba, e por fim, uma argumentação de cunho mercadológico, seus produtos possuem muito bom preço por benefício (leia-se percepção de qualidade dos tecidos e acabamento). A foto que ilustra este post, sequer fazem jus à observação da loja. Foram fotos furtivas, pois a gerente não me permitiu fotografar as peças do lado interno da loja, muito mais pesadas do que o que se vê na foto.

Voltei para casa refletindo sobre tudo isso, e cada vez que me deparava com alguém usando camisetas de alcinha, ou vestidos leves, lembrava os casacos da loja onde sou cliente.


Nao tive autorizaçao para fotografar as roupas dentro das lojas, mas ai vai uma ideia da vitrine. Foto: Solange Mezabarba

Em minhas reflexões, encontrei algumas hipóteses sobre o comportamento das mulheres cariocas em relação aos casacos pesados de lã e outros materiais próprios para temperaturas muito baixas.

Comecei com uma das observações da gerente da loja, a compra de casacos para viagens. Eu mesma já havia feito isso inúmeras vezes, principalmente quando se tratava de viagens internas, pelo Brasil, a localidades mais frias como a Região Sul. Quando viajo para a Suiça, principalmente no inverno europeu, é inútil buscar por aqui algo que garanta o aquecimento do corpo numa temperatura que pode chegar a 10 graus abaixo de zero. Melhor comprar por lá, ou pedir emprestado. Assim, o simples cálculo econômico, ou seja, a idéia de custo e benefício, se usarmos a racionalidade, pode ficar comprometida.


Lembrando das conversas e entrevistas que faço, pensei no quanto a mulher carioca pode ter, no fundo, o desejo de se vestir de uma maneira mais afeita a climas mais frios. E facil encontrar que observer que no Rio de Janeiro, "é só chover um pouquinho que todos os cariocas saem às ruas com casacos cheirando à naftalina". Seria mesmo o desejo inusitado de pôr para fora do armário aquele casaco lindíssimo que compramos por um preço incrível na liquidação de inverno do ano passado? Bem, meu marido suíço, portanto acostumado a baixíssimas temperaturas, reclama do inverno carioca. A umidade provoca uma sensação térmica que faz a gente sentir mais frio do que acusam os termômetros, que raramente descem abaixo de 18 graus. Assim, não pode ser só a vontade implícita de mostrar o lindo casaco que trouxemos da Argentina na nossa última viagem. Mas, casaco da Argentina? Talvez a mulher carioca busque um frio elegante como oportunidade para fugir do lugar comum. Por isso, peças com a cara da elegância européia confeccionadas com a textura, a gramatura e o peso adequado ao inverno carioca, possam ser uma boa opção. Mas, auto lá. Melhor esperar pelos nossos “dois meses” (ou menos) de inverno. Afinal, o outono carioca ainda pede roupas de verão.

Quem tem uma opinião diferente?

3 comentários:

  1. Vim ler logo em um dia em que as temperaturas baixaram e tá com cara de chuva...

    ah, viu, os casacos não têm de ser mesmo quentes. Afinal, o máximo de frio da clientela é em Curitiba, ou, quem sabe, em algumas salas de cinema e teatro?

    O triste de comprar roupas de frio para 'guardar' é saber que a moda muda. Por mais que o preto seja indemodable, de um ano pro outro tecidos mudam, comprimentos sobem e descem...

    Eu adoraria morar em um lugar frio como a Suíça, sabe? afinal, pra mim, as coleções outono-inverno são muito mais bonitas ...

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  2. Pois eh Thays. Acho que este eh o ponto. No fundo, no fundo tem muita carioca que adoraria poder usar um casaco daqueles, e acabam comprando com a esperanca de que vao usar mesmo. Bj.

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