terça-feira, 20 de abril de 2010

"Rituais de Arrumação" em Ipanema


Ipanema - Foto: Solange Mezabarba

Numa entrevista que fiz com uma mulher, moradora de Ipanema, ouvi a seguinte observação: “aqui (em Ipanema) a gente demora muito para se arrumar para parecer desarrumado”. Esta fala faz alusão a um código das ruas e o esforço de enquadrar-se nele. Este discurso mostra o valor do casual, ocasional, ou o que mais se pareça com a indiferença pela moda. Mas o que fica escondido aqui é exatamente o esforço do “ritual de arrumação”. A idéia é mostrar que há um desprendimento desta prática, que, na verdade, nao acontece. Grant McCracken (2003) é o antropólogo norte-americano que assinala a importância deste ritual para que novos significados sejam atrelados aos bens. No nosso caso, à roupa. Mas será que é assim mesmo como diz a minha informante? Algumas caminhadas pela famosa Rua Visconde de Pirajá poderão nos mostrar algumas coisas.


Calçadas da Visconde de Piraja - Foto: Solange Mezabarba

Comparadas com as calçadas da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, em Copacabana, as calçadas de Ipanema, também comportam diversidade, diferentes sotaques, diferentes idades, diferentes níveis sociais, porém são mais largas, com menor número de pessoas circulando e o calçamento mais firme. Esses são elementos que nos dão a sensação de haver menor tensão pelas ruas de Ipanema. Uma das primeiras coisas que se nota ao observar as mulheres que circulam por ali é a sua postura corporal. Nota-se um andar lento, espaçado, calculado, uma postura menos relaxada, a coluna mais reta. Uma postura que nos remete ao corpo tratado ou trabalhado, a um aprendizado específico sobre o modo de andar e gesticular. As roupas parecem de certa simplicidade, o que, em principio, poderíamos classificar como básicas. O que se classifica como roupa básica no Rio de Janeiro é, em geral, o jeans e a camiseta lisa monocromática. Ou, igualmente a saia e a blusa sem manga. Mas ainda que o “básico” sinalize para uma aparência homogeneizada entre os moradores locais, as roupas aqui classificadas, não raro, se distinguem pela etiqueta famosa.

Há, aparentemente, em comparação com Copacabana, menor número de roupas de malha colorida circulando, e sim, uma profusão de acessórios. Os chapéus de Panamá, ora em voga, podem ser observados pelas ruas do bairro. Poucas são as mulheres que circulam com chinelos de borracha. Mais comuns são as sandálias rasteiras, e é possível observar mais mulheres usando salto. Combinações como short jeans com óculos escuros (com marca famosa e modelo da moda) e sapatilhas também são comuns.
Outra fala interessante de uma moradora de Ipanema, com 39 anos:“... visto uma blusinha e uma saínha...”. O uso do diminutivo no discurso pressupõe pouca preocupação na hora da escolha, ou a simplicidade da peça que irá usar. Porém, o que se vê nas ruas é um diálogo com as vitrines das lojas de moda e com elementos que aparecem nas revistas – como, por exemplo, os modelos de calça comprida jeans tipo “boy-friend” e “cenoura” (que raríssimas vezes apareceram em Copacabana). Ipanema hoje não “inventa” moda, mas segue a moda querendo parecer uma forma casual de opção. Isso se reflete no short e camiseta acompanhados de uma bolsa de marca famosa, ou uma sapatilha de boa qualidade, ou um par de óculos escuros de griffe famosa com modelo da moda. Essa é uma das estratégias imagéticas compatíveis com os códigos das ruas de Ipanema.


Bolsa Louis Vuitton de uma informante de Ipanema. Foto: Solange Mezabarba

Entre as mulheres mais velhas, percebe-se o esmero de sua produção para as ruas. Neste grupo, é comum o uso de jeans com camisa de botão. A postura ereta, como já mencionada entre as mulheres de modo geral, chama a atenção entre as mulheres mais velhas. Percebe-se o cuidado na escolha de acessórios e maquiagem. Em Copacabana também percebi algumas mulheres acima de 60 anos usando maquiagem, em geral, optando por tons mais avermelhados no batom e no blush. Em Ipanema elas usam uma maquiagem mais clara, tons mais puxados para a cor da pele, a cor da boca. Mesmo nos dias em que circulei por entre as feiras livres que ocorrem semanalmente na Praça General Osório (terças-feiras) e na Praça Nossa Senhora da Paz (quintas-feiras), percebi que as mulheres mais velhas circulam por ali cuidadosamente vestidas – vi chapéus, lenços, bijuterias e maquiagem leve.


Assim em Ipanema observam-se complementos que revitalizam uma ou outra roupa – o penteado, a maquiagem, os acessórios. Isso sinaliza para a prática do “ritual de arrumação”, ainda que o discurso teime em valorizar a despreocupação com este esforço. Ou seja, o discurso da saída casual de casa, se depara com elementos na rua que colocam em cheque esta prática. Parece que a informante observou bem.

2 comentários:

  1. Muito bom este texto. Gostei, nunca havia lido algo sobre este assunto e abordado dessa forma.
    A pós pesquisa de mercado se relaciona com alguma faculdade específica?
    Abraços, e peço licença para colocar uma referência ao seu texto no meu blog, já que tenho um artigo sobre moda nele.

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  2. Solange, fiquei na dúvida: se Ipanema não faz moda aqui no Brasil, quem está fazendo?

    Atendo em um prédio que tem uma 'galeria' com lojas das mais bonitas - o Ipanema 2000. Eu fico observando quem passa, quem vai, quem entra no elevador. E realmente, tem um estilo diferente de vestir dos outros bairros. E mesmo o casual é chic! tem um corte diferente. Quase dá pra ver quem mora no bairro ou não.

    Eu, que sou super desligada, tenho me preocupado um pouco mais nos dias em que vou ao consultório, para não parecer uma ET, rsrsrsrs

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