quinta-feira, 11 de março de 2010

Escolher a roupa do marido: mais uma tarefa feminina!


O Rei Sol: Luiz XIV da França

A pesquisa do instituto SophiaMind que será publicada na Revista Exame edição de março/2010, dedicada às mulheres, aponta: 51% das mulheres entrevistadas controlam, de alguma maneira (comprando ou influenciando) o consumo de vestuário masculino. Numa mesa de reunião, no escritório do site Bolsa de Mulher, do mesmo grupo que o SophiaMind, o único homem presente estranhou o número. As mulheres não.

Quando falamos em consumo, entendemos que se trata de um processo que começa na escolha, quando buscamos critérios para optar por um ou outro produto; depois vem a aquisição e a fruição. Neste caso, estamos falando de mulheres que escolhem produtos que serão usados efetivamente pelos homens. Dá pra se pensar também em quantos homens vão às compras imaginando a opinião de suas esposas, namoradas, amantes, e, por que não, até das mães. Neste caso, há um peso feminino indireto na opção final dos moçoilos.

Ainda hoje no ambiente de trabalho é notória a pequena variedade de possibilidades para homens em relação às mulheres. Recentemente entrevistei Ilana Berenholc. Ela é consultora de imagem, e trabalha para diversas empresas. Ela me contou que os homens são muito pouco resistentes à imposição de regras de vestuário colocadas pelas empresas aos funcionários. Já as mulheres, muitas vezes dificultam o trabalho dela, querendo fazer valer o que elas costumam chamar de “estilo pessoal”. Na verdade, eles nem ligam muito, até gostam do controle, pois não precisam “pensar muito” antes de se vestir para trabalhar, além de ganharem argumentos para justificar suas escolhas.

Conheço uma empresa carioca de sapatos que começou o seu negócio vendendo apenas modelos masculinos. Hoje seu carro chefe são os calçados e bolsas para mulheres. Um dos seus sócios me contou que a loja era predominantemente freqüentada por mulheres que compravam para maridos, namorados, noivos e filhos. Mas elas apreciavam tanto o trabalho da marca, que começaram a sugerir que houvesse também sapatos femininos no portfólio da empresa. Melhor para os empresários, que passaram a vender muito mais.

A roupa masculina no mundo ocidental sofreu muitas modificações em seu estilo. Se começarmos pela Europa, veremos como a nobreza masculina abusava de cores, rufos, bordados, saltos. Em movimentos irregulares a moda masculina européia mudava ao sabor das cortes mais poderosas, ora havia predominância de um estilo sóbrio como o espanhol, ora mais enfeitado como o dos franceses. O historiador de moda James Laver, em seu livro “A roupa e a moda” publicado aqui pela Companhia das Letras, lembra que no século XVI a roupa feminina podia ser mais, digamos, modesta do que a masculina. Luiz XIV, rei da França entre 1661 e 1715 pode ser tomado como exemplo de usuário atuante em suas escolhas para vestir. O luxo era uma meta, e com ele, os exageros. Certamente foi influenciado por seu padrasto e tutor, o cardeal italiano Giulio Mazarino, que lhe ensinou sobre o poder da imagem, do luxo, do esplendor. O glamour que Mazarino conhecia vinha das cortes renascentistas italianas. Luis XIV se empenhou em tornar a França o pais influenciador do gosto para toda a Europa, e isso incluía os trajes masculinos. Por isso, no século XVIII, roupas francesas eram sinônimo de roupas elegantes.

A Revolução Francesa gerou fortes mudanças no modo francês de se vestir, sendo a mais emblemática delas, a adoção, quase que universal, da simplicidade das roupas inglesas para os homens. A Inglaterra de então era identificada como a terra da liberdade. Houve reações na França, é verdade, e aos dândis pode ser creditada uma volta ao luxo na moda masculina. Mas ainda assim, eles usavam roupas muito mais sóbrias do que os homens que viveram durante o Antigo Regime. No final do século XVIII ate os franceses se renderam ao famoso corte inglês, uma habilidade dos alfaiates ingleses que começou a ser reconhecida fora do território britânico.


Conhecido dândi francês Conde Robert de Montesquiou – Giovanni Boldini, 1897


A sobriedade nos trajes masculinos perdurou até bem pouco tempo. No Brasil, Gilberto Freyre lembra como os homens da elite carioca desfilavam seus ternos ingleses de casimira em pleno calor carioca no início do século XX. Tudo em nome da elegância e da diferenciação. Por muito tempo a sobriedade nos trajes masculinos era a afirmação da identidade masculina. Cores e estampas eram proibitivas e se tornaram elementos de afirmação negativa da identidade quando usadas por homens.


O movimento hippie nos anos 1960 e o sport wear, um pouco mais tarde, vieram trazer novos ares à roupa masculina. Cada vez mais as cores e as estampas estão presentes nos cabides masculinos. Mas mesmo nos anos 1970, periodo apos o Movimento Hippie, a cor rosa ainda era “proibida” para os homens. Ana Maria Bahiana bem lembra em seu “Almanaque dos Anos 70” lançado pela Ediouro, que o ator José Wilker, em pleno desbunde dos anos 1970, decidiu sair vestido de cor-de-rosa da cabeça aos pés pelas ruas de Ipanema e gerou polêmica. Polêmica também foi a aparição de Caetano Veloso e Gilberto Gil de blazer e um sarongue no Premio Shell de 1993. Pobres homens!

Assim fica mesmo difícil escolher o que vai em seus cabides – tanto tempo com um guarda-roupas tão pouco colorido e variado... E agora, como lidar com a diversidade de modelos, cores, texturas?


Foto: Solange Mezabarba - Armario masculino.


Foto: Solange Mezabarba - Armario feminino

As mulheres sempre mantiveram estreita relação com as roupas, embora, no ambiente capitalista, o tecedor e o alfaiate masculinos sempre tenham tido o seu lugar. O historiador Peter Stallybrass em seu livro “O casaco de Marx”, publicado pela Autêntica, lembra que no ambiente domestico, eram as mulheres quem estavam sempre mais próximas às roupas: na confecção, limpeza ou conserto. A elas a Revolução Francesa também afetou, gerando roupas femininas mais simples, menos enfeitadas. Mas as novidades do vestuário feminino não cessaram de aparecer. A socióloga Diana Crane, em seu livro “A Moda e seu papel social”, publicado pela Editora do Senac, tem a sua tese a respeito. Para ela, o mundo do trabalho é mais inflexível em relação ao vestuário, e o mundo do trabalho sempre esteve mais fortemente associado com o gênero masculino. É no lazer e espaço doméstico que o vestuário masculino ganha novos significados. A mulher, senhora do seu ambiente doméstico, se ocupou com mais criatividade da sua roupa. Além disso, a roupa, para a mulher, podia assumir muitas representações: posição social, identidade, sedução, e ainda, segundo Crane, um grito silencioso de igualdade. Sedução, pois era a arma de que dispunha para conquistar um marido. Por exemplo, no Brasil do século XIX, a mulher que não se casava era desprestigiada. Assim, a roupa era pensada para valorizar o corpo da mulher, sendo uma forte aliada na arte de encontrar um bom marido. De outro lado, para Crane, a incorporação de elementos masculinos nos cabides femininos tinha relação com uma busca silenciosa por igualdade – a gravata, a calça comprida. Se os homens eram o “grupo dominante”, não fazia sentido o movimento inverso – ou seja, que eles incorporassem elementos femininos em suas vestes. Para as mulheres, as roupas eram amarras, e elas foram se desprendendo delas amiúde. Chanel contribuiu bastante.

Dada a expertise feminina no assunto, e o pragmatismo masculino, melhor mesmo é que eles continuem delegando às mulheres esta dura tarefa.

4 comentários:

  1. Oi, Solange,
    acredita que ainda tem homem (com Mestrado, morador da Zona Sul do Rio) que acha que roupa rosa não é cor pra homem? Incrível, não?

    Bom, quanto à tarefa de escolher roupa pra homem, por favor, não me arranje mais um papel não, please... rsrs No máximo um desempate na hora de uma compra ou de escolher uma roupa pra sair.
    Mas me poupe de separar a roupa do marido ou namorado antes de sair ou, pior, combinarem de sair parecidos, com mesma cor. Acho que é maternalizar demais, rsrsrsrs

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  2. Gostamos. Parabéns pelo seu trabalho.
    Muitos trajes de noivos e de padrinhos tem criação baseada na moda remota.
    Equipe Maximu´s Rigor

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  3. Ai Thays... pode ser dificil, mas eh muito melhor do que sair com alguem que optou equivocamente por uma roupa... rsrsrsr

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  4. Maximus Rigor: muito obrigada pelo seu comentario. Interessante saber de alguem do mercado, como vc, que noivos e padrinhos seguem o que vc chamou de "moda remota". Adoraria saber mais...

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