sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A vitrine cairota


Foto: Houda Blum Bakour - Pirâmides de Gize

(O post de hoje foi escrito com a colaboraçao de Houda B.Bakour)

Uma grande amiga minha, companheira de doutorado, está no Cairo fazendo sua pesquisa de campo para a tese. Houda Blum Bakour pesquisa religião, e seu trabalho versará sobre os coptas, uma religião cristã, fundada no Egito, e que hoje representa uma minoria religiosa naquele país. Estima-se que algo como 10%. Os outros 90% da população egípcia são muçulmanos.

Os muçulmanos são os seguidores do Islã, que, em algumas fontes consta com o significado de “submissão”, e em outras de “entrega” com o sentido de obediência a Deus, ou Allah. Não há um líder muçulmano máximo como entre os cristãos católicos e ortodoxos há. Os coptas no Egito – e da diáspora – estão submetidos à autoridade do Papa de Alexandria, atualmente Shenouda III. Por não haver um líder que dirija o Islã, seus seguidores obedecem aos escritos do Alcorão, seu livro sagrado, e, seus diversos segmentos criam diferentes interpretações sobre o Livro Sagrado, através de autoridades religiosas locais. Daí algumas diferenças que podemos perceber. Uma delas através do vestuário feminino.

Nos noticiários brasileiros, não raro, nos deparamos com a imagem da mulher muçulmana, subjugada e obrigada a se vestir com pesadas burcas, que cobrem totalmente o seu corpo, e que as impede de olhar para os lados. No entanto, o que muita gente não percebe é que as diversas interpretações do Alcorão também resultam em mulheres vestidas de diferentes formas. A fotógrafa britânica Harriet Logan em seu livro Mulheres de Cabul (publicado no Brasil pela Ediouro, 2006) apresenta histórias de vida de diferentes mulheres afegãs e de como foram reprimidas socialmente desde que o regime Taleban se instalou no país, começando pelo vestuário. Na última capa do mesmo livro, no entanto, vemos uma foto de mulheres afegãs, muçulmanas, antes do domínio Taleban, usando mini-saias. Os Talebans são um movimento extremista que nasceu através de membros da etnia denominada Pashtun durante a guerra fria entre EUA e URSS. Um grupo religioso radical paquistanês foi armado pelos EUA e incentivado a entrar no Afeganistão “em nome de Allah” para retomar o território norte que já estava sobre domínio Soviético. Os Talebans, com sua interpretação radical do Alcorão, definiram, entre outras regras, o vestuário repressor para mulheres que chegaram a conhecer a mini-saia.

Num primeiro momento me surpreendi quando Houda Bakour me contou que algumas mulheres muçulmanas poderiam envergar sua burca com forte orgulho de sua identidade étnica e religiosa.

No Egito, não há uma doutrina tão rigorosa em relação ao vestuário. Houda circula pela capital, Cairo, usando seus jeans e blusas com manga comprida, e o véu não é obrigatório, ou melhor, a mulher que dispensá-lo não será apedrejada. Porém, alguns códigos devem ser respeitados. Como por exemplo, nunca expor o corpo. Houda conta que nos meses mais quentes, dificilmente se vê mulheres de saias curtas ou homens de bermuda, ou roupas sem manga circulando pela cidade. Lá, homens e mulheres respeitam esses códigos considerados morais mais do que religiosos, pois são relativos à cultura egípcia de forma mais ampla, e cristãos e muçulmanos os respeitam.


Foto: Houda no Deserto Branco


Recentemente Houda me enviou uma fotografia muitíssimo interessante. Trata-se de uma vitrine numa loja de roupas femininas no Cairo. A foto me causou estranhamento e muita curiosidade. Manequins envergam modelos de cores escuras, cobrindo todo o corpo, incluindo a cabeça que recebe um véu da mesma cor que o restante da roupa.


Foto: Houda Blum Bakour - vitrine cairota.


A elaboração de vitrines é uma ação importante dentro do planejamento de marketing de uma loja no setor de vestuário. A exposição das roupas deve ser feita de modo a atrair a consumidora. É a vitrine que mostrará às pessoas que passam pela rua que atmosfera encontrarão dentro da loja, que estilo de produto. Ou seja, a vitrine é o ponto de contato entre as pessoas que transitam nas ruas e a loja. A decisão de entrar ou não em uma loja passará pela avaliação inicial da vitrine.

Foi por isso que decidi convidar Houda para uma entrevista, com a expectativa de ouvir (ou ler) a partir de sua vivência num país de cultura tão diferente da nossa, algo sobre a tal vitrine, e entender algumas lógicas de mercado e consumo de vestuário naquele país.

Por e-mail, Houda me enviou a seguinte entrevista:

Solange: Onde exatamente foi feita esta fotografia: em que tipo de bairro e em que tipo de loja?

Houda: Essa é a vitrine de uma loja no centro do Cairo. Numa região próxima a hotéis, agências de viagem, bancos, repartições públicas e empresas. O que significa que a ‘clientela’ é bem diversificada, como pessoas que trabalham na região, mas principalmente turistas. E não podemos esquecer que turistas no Cairo, e no Egito, de forma geral, não são só os europeus, americanos, etc... Existe um fluxo considerável de turistas vindos dos países árabes próximos (Emirados, Arábia Saudita, Sudão e os países do norte da África). Esta é considerada uma loja que vende roupas de boa qualidade e caras para os padrões locais.

Solange: As roupas parecem bem pesadas. Você percebe que as mulheres do Cairo já estão nas ruas usando roupas como essas?

Houda: Bom, estamos no inverno, é uma vitrine de inverno, e ao contrário do que pensamos, faz frio nesta cidade. Não é um frio ‘europeu’ mas exige roupas mais pesadas.

Solange: O que muda quando chega o verão?

Houda: Os tecidos são mais suaves.

Solange: Há algum motivo (que não a moda) para que a cor escura predomine?

Houda: A cor preta, se formos falar em termos de moda, podemos dizer que faz parte de uma ‘moda religiosa’. As roupas desta vitrine são predominantemente pretas por seguirem esta tendência.

Solange: As peças parecem que formam um conjunto. Há um nome específico para o conjunto? Há um nome para o véu separadamente? Como se chamam as roupas expostas?

Houda: Essas formam um conjunto sim, em geral o uso de tecidos pretos que envolvam o corpo e a cabeça das mulheres são chamados de Hijab. Mas este nome vem do uso da cor preta e da forma de se cobrir a cabeça. Esses modelos ‘conjunto’ são relativamente recentes e tem uma relação direta com um fluxo transnacional, que se deu a partir de meados dos anos setenta, de trabalhadores egípcios (e de outros países árabes) em busca de trabalho nos países do golfo. Hoje, 30 anos depois, existe uma população ‘flutuante’ neste sentido, que vão e vêm e há uma discussão bastante interessante sobre a influência hoje presente na sociedade egípcia que veio através deste fluxo.

Solange: Por que o véu? O uso é obrigatório ou só recomendado? Todas as mulheres usam véu?

Houda: Nossa, quanta pergunta numa pergunta só..rsrs! Vamos lá: O Islã é uma religião que não conta com uma autoridade religiosa máxima (como o Papa para os cristãos). Todos os líderes religiosos se baseiam no Alcorão (livro sagrado) e na vida de Maomé e suas interpretações. O Alcorão recomenda o uso do véu para as meninas após a primeira menstruação. O que existe são diversas interpretações a respeito desse uso (quando, como, etc). Sempre existiram mulheres muçulmanas que usam e que não usam o véu. Mas também a partir dos meados do século passado, houve – por diversas razões que necessitariam de um texto a parte – o início de um maior envolvimento religioso dentro da sociedade egípcia, e com isso podemos dizer que hoje 90% das mulheres muçulmanas no Egito usam algum tipo de véu.

Solange: Não há estampas. Isso se deve ao estilo, à moda, ou alguma regra cultural?

Houda: Há muitas estampas, cores, formas, sobreposição de tecidos, etc... A vitrine que vocês vêm, como mencionei acima, expõe um estilo especifico.

Solange: Essas roupas seriam usadas em que ocasiões? São roupas consideradas localmente formais, informais, roupas para trabalho, lazer, ou as cairotas não fazem este tipo de classificação?

Houda: Essa divisão de formalidade e informalidade não encaixa muito bem dentro da cultura local. Podemos dizer que existem roupas de casa, roupas de sair e roupas de festa. Este estilo que está na vitrine, por exemplo, exige uma outra roupa por baixo, que pode ser uma calça jeans, um vestido ou até mesmo a própria roupa de casa. Isto vai depender para onde a mulher está indo. Porque se estiver indo para a casa de sua família ou de amigas, ao chegar lá ela vai tirar esta veste e vai ficar com a roupa que está por baixo (e aí é outro estilo, outra moda, etc... a moda aqui é em camadas..rsrsr). Agora, se estiver indo para um lugar público (loja, banco, mercado, etc) ela pode estar vestida com quase qualquer coisa por baixo, pois não vai precisar tirar o ‘conjuntinho’. Se estiver indo para uma festa também muda tudo.

Solange: Há uma roupa curta de cor clara no canto esquerdo. Ela se destaca das demais. Como é o uso de roupa curta?

Houda: A roupa curta é um casaco de inverno, está lá para quem não usa o outro estilo ou, o que é mais provável, para as filhas mais novinhas que ainda não precisam usar o véu.

Solange: Como as mulheres se vestem no seu cotidiano? Você percebe entre elas, por exemplo, o uso do jeans?

Houda: Como já disse existem inúmeras formas de se vestir, e de usar ou não usar o véu. Existem muitas meninas principalmente as mais novas, universitárias, etc que usam jeans e casaco (já que estamos no inverno) e um véu que geralmente combina com a cor da roupa, etc..

Solange: Como essas roupas aparecem na mídia? Há revistas de moda? Como são as revistas de moda? Quais as possíveis influências midiáticas nas escolhas das mulheres cairotas para se vestir?

Houda: Eu não sei ainda. Revista de moda eu não vi nas ruas. Aqui não existem bancas de jornais, existem umas pessoas que seriam uns jornaleiros mas que expõem jornais, livros e algumas revistas na rua mesmo, e nesses ‘jornaleiros’ eu não vi nenhuma revista de moda. Os comerciais da televisão podem ser um veículo, mas indireto. Não vi ainda propagandas de lojas de roupas, mas as mulheres dos comerciais em geral não usam véu, só os comerciais de produtos para casa (sabão em pó, caldo Maggi, etc..), quer dizer, as ‘donas de casa’ geralmente estão com véu. Mas isso também tem a ver com a origem dos comerciais. Se for do Golfo, aí é com véu. As apresentadoras da TV egípcia estatal, por exemplo, não usam véu, e dizem que é uma exigência. A TV aqui é via satélite então pega de tudo, mas tem o satélite principal, mais usado, NileTV, a maioria de seus canais são dos países árabes.

Recebi esta foto depois de publicar o post. E de Jacques Lerer, que esteve recentemente com Houda Bakour e Fatima Portilho no Cairo. Valeu, pessoal!!!
***

Muita coisa curiosa. Adoraria poder desenvolver ainda mais cada uma dessas questões, mas ainda não é a proposta deste espaço. Por ora, basta sabermos que o vestir pode sofrer forte influencia religiosa, mas que isso não significa que não haja uma gama de possibilidades diferentes à disposição das mulheres, e que a criatividade não atue na estratégia de vestir e combinar as peças. Afinal, mulheres são sempre mulheres em qualquer parte do mundo, seguindo qualquer doutrina religiosa.

5 comentários:

  1. Amiga Solange,

    belíssimo texto, muito pertinente e curiosas as informações aqui contidas.

    Permita-me, porém, um acerto com vistas de colaboração: Os cristãos ortodoxos não reconhecem a liderança Papal, ao contrário do que está escrito no segundo parágrafo deste texto. Aliás, foi justamente o debate sobre a superioridade Papal, um dos motivos do "racha" entre os católicos do ocidente e do leste, que ficou conhecido como "O grande cisma do oriente", ocorrido no século XI, se não me engano.

    Bjs e mais uma vez, parabéns pelo ótimo blog!

    George De Marco

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  2. George, obrigada pelo seu comentario. Tlvz o texto nao esteja claro. Nao quis dizer que os catolicos ortodoxos seguem a liderança do Papa, como catolicos romanos. Mas que existe uma liderança para eles, tanto quanto existe para os catolicos romanos (o que nao ocorre entre os muçulmanos). Bjs.

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  3. Excelente a participação da Houda. Ótimo post, Solange!

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  4. Elogios, rasgação de seda, não é o meu forte, mas seu texto e toda a matéria em si é sensacional, parabéns!
    Não posso perder nada que escreve por aqui!
    SucessO

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