segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Procura-se moça com boa aparência

Foto: Solange Mezabarba-Afrodite-Museu Nacional Arqueológico - Atenas

Todas as vezes que uma mulher é vítima de um erro médico ou uma fatalidade na mesa operações para uma cirurgia plástica ou lipoaspiração, e infelizmente não são poucas, as críticas são inevitáveis. Os erros médicos quase sempre são menos atacados do que as vítimas. Quem mandou querer melhorar a aparência? Quem mandou se submeter à vaidade? Quem mandou usar de artifícios “mágicos” para perder as gordurinhas?

Ora, já dizia o poeta que “As muito feias que me perdoem. Mas beleza é fundamental”, e a despeito dessa ditadura do “politicamente correto” que vivemos na atualidade, o poeta, que escreveu muito antes disso, tinha razão.

Pessoalmente aprendi a diferença entre as belas e as normais bem cedo. Na escola, ainda na primeira série, quinze dias depois de iniciadas as aulas, Valéria chegou. Sua aparência se destacava das demais meninas da turma, e quiçá, da escola. De uma hora para outra, todas as meninas queriam ser suas amigas, todos os meninos a viam com admiração. Todos a deixavam passar na frente na fila da cantina, era sempre escolhida pra ser a rosa na brincadeira da Rosa Juvenil.

Richard Sennett lembra que na Grécia de Péricles (estadista ateniense morto em 429 a.C.), os guerreiros eram retratados nus. Isso mostrava que eram civilizados e que o corpo belo e forte dos guerreiros atenienses era uma marca de distinção entre os fracos e os vulneráveis. A aparência masculina era usada para impor respeito. As mulheres permaneciam reclusas em suas casas, e, ao contrário dos homens que trajavam roupas largas expondo o seu corpo pelas ruas, elas, quando saiam às ruas, usavam túnicas de linho cobrindo os tornozelos. A beleza da mulher era celebrada através da mitologia de Afrodite, que também simboliza a sexualidade.

O cristianismo inaugura uma atitude ambivalente em relação à beleza. Se o ser humano é a imagem de Deus, sua aparência é divina, o que relaciona a beleza ao criador. Mas a beleza também simboliza a tentação da carne e a vaidade, um dos sete pecados capitais.

Minha mãe, que precisou fazer uma plástica reparadora nos seios, aceitou a sugestão do médico de “aproveitar a anestesia e fazer uma plástica na barriga”. Em casa, no entanto, percebia-se a culpa. Era como se a cirurgia reparadora fosse legítima, mas a plástica na barriga, uma entrega desnecessária à vaidade.

A psicóloga Nancy Etcoff de Harvard corrobora a percepção que tive da amiguinha da escola, Valéria, aos sete anos de idade. A experiência da beleza, em especial para as mulheres, abre portas. Para a psicóloga, ninguém quer contrariar as belas, por isso elas conseguem ser mais convincentes, pessoas bonitas abrem espaço nas ruas para caminhar, sem que ninguém esbarre em seus corpos, pessoas belas fazem amigos mais facilmente. A psicóloga é contundente ao afirmar que o mais cruel e velado preconceito da humanidade é contra aqueles considerados feios. Não é à toa que num passado recente era comum vermos anúncios na seção de empregos pedindo pessoas “com boa aparência”, seja lá o que isso for.

Vivemos num mundo em que o belo corpo e o belo rosto são um capital, como bem classificou a antropóloga brasileira Miriam Goldenberg. Disso não podemos fugir. E ser magra hoje é um padrão de beleza desejado pelas mulheres. Mas, como diz Pierre Bourdieu, os capitais são distribuídos desigualmente nos diferentes campos.

Sobre a moça, vítima de erro médico na lipoaspiração, cheguei a ler no blog de um jornalista que o nosso Ministro da Saúde deveria proibir as lipoaspirações no Brasil. Li também comentários de muita gente, como sempre, repreendendo as pessoas que acreditam em fórmulas mágicas para alcançar um ideal de beleza inatingível. Mas sejamos sinceros, quem não gosta de acreditar em fórmulas mágicas? A propaganda se vale da nossa propensão para acreditar em fórmulas mágicas. Cabe ao governo, não proibir, mas fiscalizar duramente os profissionais e os produtos que se apresentam como “fórmulas mágicas” e dobrar a atenção com os discursos que prometem milagres. A moça era jornalista de telejornais, o que fazia da sua imagem, uma vantagem competitiva no seu campo de atuação. Provavelmente, a despeito de sua posição privilegiada como jornalista, ela acreditava em "formulas mágicas".

Foto:Solange Mezabarba


As mulheres com quem conversei para a minha pesquisa de campo na ocasião da minha dissertação de mestrado, eram taxativas ao reclamar das lojas que não vendiam roupas adequadas para quem estava com uns quilinhos a mais. Então o mercado também prefere mulheres magras. Mas o vestuário, para essas cariocas, era um importante elemento no jogo das aparências. Não porque as roupas deveriam ser caras ou com marcas famosas, mas deveriam tomar parte no jogo de mostrar o que todo mundo diz que é bonito, e esconder o que todos criticam na aparência feminina. A adequação ao corpo era o principal item a influenciar nas escolhas das roupas do dia-a-dia. A exceção eram as escolhas para as ocasiões consideradas de maior formalidade, como festas de casamento, ou outros eventos. Neste caso, a roupa é que buscava a adequação do corpo. Uma das mulheres, a da foto acima à esquerda, relatou o caso do jantar num cruzeiro de luxo, em que usava o vestido vermelho da foto, tão justo, que nem pode comer direito. Tudo para sustentar a elegância de envergar o tal vestido. Todas sofremos com saltos altos, vestidos justos, depilação a cera, tudo para nos mantermos “socialmente desejáveis”.

Em outra pesquisa que realizei a um tempo atrás, com mulheres acima de 60 anos, entrevistei uma senhora. Perguntei-lhe por que fazia questão de se vestir tão esmeradamente no seu cotidiano, não dispensando cuidados constantes com o cabelo e as unhas feitas no salão. Ela me respondeu: “se você anda feio e desleixado, ninguém nem vai querer se sentar do seu lado no ônibus”. Inconscientemente essa mulher ela sabia o que era ser “socialmente desejável”.

Não estamos mais na era dos espartilhos, mas também não mais na era do confinamento. As mulheres estão nas ruas. Como lembra o historiador Georges Vigarello, a mulher renascentista, pela primeira vez é liberada da tradição que a demonizava, a beleza se assemelha a uma reabilitação, “é a primeira forma moderna de um reconhecimento social”, diz Vigarello em “Historia da Beleza”, publicado no Brasil pela Ediouro. A deselegância era uma marca social de inferioridade. Isso tudo felizmente mudou para nós mulheres das sociedades ocidentais modernas, mas implicitamente, sabemos que a beleza continua sendo fundamental. Não por vaidade, mas como um inevitável facilitador nas nossas relações cotidianas.

Em tempo: Vinicius termina seu poema da seguinte forma - "Do efêmero; em sua incalculável imperfeição constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável" (Do poema: Receita de mulher).

2 comentários:

  1. Prima, adorei ler sua opinião sobre o atual assunto das "fórmulas mágicas"; ainda não tão mágicas (por não serem insentas de dores e riscos)!
    Tenho disseminado o link do seu blog, recebo muitos eleogios!!!

    bjs

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  2. Prima querida, obrigada pela força! Beijo grande.

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