sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Bordados na Peninsula de Yucatan


Shopping Center na Avenida dos Hoteis em Cancun. Foto: Solange Mezabarba

Comecei a minha viagem ao Mexico por Cancun. Até a década de 1960 nada existia por ali, a não ser algumas casas de uma pequena populacão de origem maya, que vivia do cultivo de coco. O governo mexicano, com vistas ao aumento de divisas, decidiu então criar um complexo hoteleiro numa belíssima região em pleno azul do mar caribenho. O primeiro hotel se levantou em meados da década de 1970. Nos anos 1990, pelo menos no Brasil, Cancun se tornou uma mania.

Fevereiro é o período de inverno, e, pelo que pude notar, ha um grande fluxo de turistas norte-americanos e canadenses. Um canadense que encontrei em Uxmal, que fica no interior da Península de Yucatan, me disse o que, para mim, parecia obvio: "estamos fugindo do nosso inverno". A Península de Yucatan é formada por 3 estados: Yucatan, Campeche e Quintana Roo (onde fica o complexo hoteleiro de Cancun). A Península, no Mexico, é a area que foi ocupada um dia pelo povo maya.

Há quem diga que Cancun não é o México. Não posso concordar. Apesar do visual que lembra um pouco Orlando, misturada com uma pitada de Miami, Cancun é sim, o México. Não posso negar que é perceptível o esforço comercial que me parece estar pronto a receber ate mesmo os americanos mais saudosos de casa - shows e parques aquáticos nos moldes de Orlando, Starbucks, Burguer Kings e McDonalds se mesclan com as luzes, cores, movimentos da área central de Cancun, que, à noite, com seu Hard Rock Café, suas boates, parece querer lembrar, ainda que bem de longe, a pulsação da Times Square. Mas mesmo o espanhol falado junto com o inglês, ja tao comum em Miami, a comida mexicana já tão popular entre os americanos, não puderam suplantar o maior dos indícios da terra dos mayas: seu artesanato.


O colorido artesanato dos mayas. Foto: Solange Mezabarba

Lá está, no centro de Cancun, o mercado de pulgas com peças bonitas, bem acabadas e nem tão caras. São máscaras de madeira, ceramicas coloridas, e, foco de meu maior interesse, os vestidos bordados mexicanos. São muitos, tem cores fortes, são feitos a mão, fazem com que o nosso olhar se desvie. São conhecidos como huipil, um vestido reto, como uma tunica, com seus bordados. Os espanhóis trouxeram a técnica das mangas, que até a chegada deles ao continente, ainda nao existiam no vestuário nativo. Percebe-se assim, um territorio de amplas trocas culturais. Primeiro com os espanhois, mais recentemente, com os norte-americanos.


Vestidos expostos por toda a parte na Península de Yucatan. Foto: Solange Mezabarba

Inúmeros sites no Brasil oferecem os famosos vestidos bordados vindos de Oaxaca e Chiapas, dois estados mais ao sul, onde, aparentemente, se concentra boa parte da produção artesanal de vestuário mexicano. A pesquisadora Chloe Sayer, que investiga tecidos mexicanos desde 1973 endossa este fato em seu livro "Textiles from Mexico", publicado pelo British Museum em 2002. Mas, se esses dois estados são hoje os mais representativos na produção de têxteis e bordados, a Peninsula de Yucatan, onde estive, nos mostra como os bordados estão entranhados nas mãos das mulheres mayas. Sim, mayas. Eles, os mayas, ainda transitam pelo território mexicano, principalmente na regiao da Peninsula de Yucatan, vivem em seus pueblos, falam suas diversas línguas, inclusive o espanhol. Geraçoes mais velhas, nao raro, so falam seu idioma nativo. Muitos mayas trabalham nos hotéis, restaurantes e transportes. Muitos vivem do artesanato.


Mulher maya com seu vestido bordado, vendendo artesanato nas ruinas de Chichen-Itza. Foto: Solange Mezabarba

As pequenas barracas repletas de vestidos aparecem aos borbotões por todos os lados. Em algumas cidades, como Mérida e Vallidolid, há lojas estabelecidas que comercializam peças de excelente acabamento. Mas nas barracas, não raro, podemos ver artesãs mayas em ação. Os tecidos, quase sempre, são o algodão local.

O algodão é nativo da região, inclusive o chamado coyuche, naturalmente da cor de caramelo. O preparo artesanal do algodão para a produção têxtil é trabalhoso. As impurezas são removidas com as mãos, depois as mulheres batem com estacas de madeira para a aderência das fibras, e finalmente iniciam o processo de fiação.

O vestuário maya causou estranhamento entre os exploradores espanhóis, quando à época das navegações já avistavam a população local com suas túnicas confeccionadas em algodão. A tradição dos tecidos é antiga, mas os bordados, eram mais comuns nas roupas da nobreza maya. Com a chegada dos espanhóis, novas técnicas e motivos foram incorporados à tradição dos bordados. Os bordados são feitos com motivos variados, havendo, no entanto, predomínio das flores. Aprender a bordar faz parte das atribuiçoes feminas entre o povo maya, e se tornou uma atividade passada de mães para filhas. Dona Victoria, uma senhora maya com quem conversei numa das barracas, olhou para mim e disse: "não estudamos, não sou mestra, mas aprendemos a bordar".


Dona Victoria em sua barraca bordando mais um vestido. Foto: Solange Mezabarba

O uso das roupas bordadas, no entanto, tem sido olhado pelas gerações mais jovens como uma prática ultrapassada ou coisa para turistas. As mulheres mais jovens, embora façam os bordados, não usam os vestidos e batas em seu cotidiano. Os homens, há muito já se desligaram da tradição das vestes mayas. Muitos deixaram seus pueblos de origem para trabalhar em centros urbanos e, por isso, precisaram aderir a uma nova forma de vestir. Com as mulheres mais jovens, aparentemente, ocorre a mesma coisa. As filhas de um taxista maya com quem conversei em Quintana Roo confeccionam vestidos bordados, mas, como trabalham na cidade, usam as roupas tradicionais apenas em seu pueblo. As filhas de Dona Victoria tambem bordam, mas se vestem de outra forma.


Filhas da Dona Victoria, bordando, mas usando roupas diferentes da tradiçao maya. Foto: Solange Mezabarba

Os preços dos vestidos variam, principalmente, de acordo com a cidade onde são vendidos. Em Cancun podem chegar a 70 dólares. Em Chichen-Itzá, vi a 30 e 50 dólares. Mas na cidade de Mérida podem custar algo próximo a 20 dólares. No Rio de Janeiro, não faz muito tempo, encantada com um vestido mexicano comprei uma peça de uma dessas moças que vendem pela internet. Paguei 218 reais. Algo impensado para a humilde população maya da Peninsula de Yucatan. Talvez elas não saibam do valor que damos ao seu trabalho.



Bordadeira em Uxmal diante de sua barraca de vestidos. Foto: Solange Mezabarba

Na Peninsula de Yucatan, duas importantes cidades para quem quer comprar ou conhecer a produção artesanal são: Izamal e Kimbila. Izamal, no caminho entre Chichen-Itzá e Mérida é uma linda cidade toda amarela. Sim, a cidade inteira está pintada na cor amarela. Suas construções datam do século XVI e a cidade é conhecida por ser o melhor lugar para se comprar artesanato. Kimbila é onde está uma pequena comunidade de bordadeiras especializadas na técnica do ponto de cruz. Há pequenas lojas onde elas vendem suas peças. Lindos vestidos estão expostos nas vitrines. O México e um pais para voltar...


Vestidos expostos para venda em Chichen-Itza. Foto: Solange Mezabarba

2 comentários:

  1. adorei estes trabalhos maquinificos

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  2. AMEI ESTES BORDADOS,SAO LINDOS...UM DIA CHEGO LA

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