quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Moda e "Não-Moda"


Mulheres em Burma. Foto: Regula Beck

Minha observação empírica se concentra sempre no vestuário e suas possibilidades. No entanto, quando falo de roupa, de modo geral, as pessoas associam logo com MODA. Isso ocorre porque na nossa sociedade a forma de se vestir ficou muito proximamente associada com a moda. Mas moda e vestuário são conceitos distintos.

O filósofo francês Gilles Lipovestsky observou que o surgimento da moda foi possível em uma sociedade que começava a tomar gosto pelas novidades. Isso se deu, em especial na Europa por volta do século XV quando o comércio com Oriente se intensificou levando àqueles que tinham acesso aos bens estrangeiros, novas cores, novos tecidos, novos estilos.

Já as sociedades tradicionais são temerosas frente ao novo, e preferem manter outros critérios para o uso do vestuário e do adorno. Esses critérios delimitam o uso de determinados elementos para marcar status social, estado civil, pertencimento. O que eu poderia chamar de “Não-moda” é estática, mas isso não significa que não sofra mudanças ao longo do tempo. Já a moda, por seu conceito, é cada vez mais dinâmica.


Neste post, incluí algumas imagens com etnias que se vestem de modo tradicional, ou seja, não elegem o que vestem mirando-se no que está na moda, mas obedecem os padrões tradicionais de seu povo. Vou mostrar alguns casos que observei.


Indio Pataxo na Reserva proxima a Porto Seguro. Foto: Solange Mezabarba

Esta foto mostra um índio Pataxó na reserva próxima à Porto Seguro-BA. O interessante foi que, quando perguntei a ele como se vestia quando estava em sua casa, na cidade, ele me respondeu: “lá, eu me visto normal”. Ou seja, com este discurso percebo o esforço em manter viva a tradição de seu povo, porém, eles sabem que sua integração na cidade dependerá da forma de se vestir. Por “normal”, entendi que ele identificou o jeito da cidade como incorporado ao seu cotidiano. Vestir-se de modo “tradicional” era exceção. E assim, a boa e velha calça jeans e a camisa ocupam o guarda-roupas deste moço quando ele não está na reserva.


Mulher em Ollantaytambo. Foto: Solange Mezabarba

Mulher em Ollantaytambo (Peru). Seu traje colorido com estampas geométricas é o que ela veste em seu dia-a-dia. O chapéu também tem seu formato específico com desenhos que remetem à sua etnia. Mantem, portanto, a forma tradicional de se vestir.



Mulher em Otovalo. Foto: Solange Mezabarba

A mulher de Otovalo vendia lenços. Num primeiro momento, pensei que sua figura se tratasse apenas de um elemento turístico, já que Otovalo é o lugar para se fazer compras nas proximidades de Quito. No entanto, de volta a Quito, encontrei uma senhora otovaleña e seu marido. Muito tímida, pouco falava, mas mostrou-me seu traje, muito parecido com o da moça acima. Apontou seu colar de contas, como algo que fazia parte daquela indumentária. Mostrou-se muito segura daquela forma de vestir, mesmo quando circulava pelo centro da capital do Equador, disputando seu espaço com turistas e citadinos em seu cotidiano.


Vestidos mexicanos. Foto: Solange Mezabarba

Os huipils das mulheres mayas no México, já foram tema de outro post que publiquei. Percebi que as gerações mais jovens vêm abolindo o uso do traje considerado típico das mulheres mayas. Ultimamente algumas delas o associam com turistas ou mesmo mulheres mais velhas. No entanto, conversei com um senhor de origem maya que me garantiu que em seu pueblo, as mulheres da sua família, de todas as gerações ainda envergavam a roupa que é a marca da sua etnia. Na cidade, todas se vestiam conforme a moda, pois, trabalhavam para empresas que se estabeleceram na região próxima à Cancun.




Diferentes etnias em Burma. Fotos: Regula Beck

Em Burma, mais de 100 diferentes etnias convivem, e, cada uma, ainda mantem a sua tradição no vestir. Numa das fotos, as já conhecidas “mulheres-girafa”, ou Padaung. Parte desse povo migrou para a Tailândia, mas seu modo de vestir se converteu num atrativo turístico, especialmente, por conta do conhecido adorno que usa em volta do pescoço. Apesar das explicações míticas, hoje os aros são apenas um adorno que faz parte da sua tradição de vestir.

Minha pergunta aqui é: podemos dizer que o uso de jeans e camisa, mencionado como roupa “normal” pelo Pataxo, pode ainda ser associado ao conceito de moda? Ou será que estamos “inventando” uma tradição de vestir? Ou será que, vestir-se na moda é apenas ter a possibilidade de escolher?

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Betty, a inadequada!


Betty, a feia. Telenovela colombiana apresentada na emissora RCN.

Já faz algum tempo, minhas amigas estranham o meu hábito de não ver mais novela brasileira, mas sim, as colombianas. E tudo começou com Betty.

A novela “Yo soy Betty, la fea” foi ao ar no Brasil pela RedeTV há uns oito anos atrás simplesmente como “Betty, a feia”. Naquela ocasião, não lhe “pare bolas” como dizem nossos hermanos mas ajá, ou seja, não dei muita atenção. Recentemente a internet e a boa vontade daqueles que postam capítulo por capítulo uma novela inteira num canal do youtube, me possibilitaram apreciar sem dublagem a história de Betty.

A produção original colombiana foi ao ar naquele país entre 1999 e 2001 pelo canal RCN (Radio Cadena Nacional), e, para além dos países que exibiram sua versão original, contei mais de 18 que fizeram um remake próprio. Entre eles, nós mesmos, brasileiros, com “Bella, a feia”, recente produção da Rede Record. Com esta, já é a quarta versão apresentada por aqui. Além da colombiana, o SBT apresentou a mexicana “La fea mas bela” e a série americana “Ugly Betty”. Mas o que teria Betty de tão especial para ter entrado, inclusive, no Guiness Book 2010 como a telenovela de maior sucesso?

Escrita por Fernando Gaitán, a história de Betty pode ser analisada sob vários aspectos, mas o mais interessante, certamente, é acompanhar o sucesso pessoal e profissional de uma mulher considerada feia. Um conto de fadas romantico e moderno? Hum... pode ser. Mas, que conste: antes de qualquer análise, a classificação de “feia” é para ser pensada.

A história é a seguinte. De um lado, Beatriz Pinzón Solano, a nossa Betty. Uma economista brilhante com um curriculum invejável, mas com dificuldades para encontrar um trabalho na sua área. O motivo? Quando os analistas de Recursos Humanos olham a sua foto, preferem não chamá-la para uma entrevista. Quando Betty decide enviar seu curriculum sem a foto, é finalmente, chamada, só que, para o cargo de secretária da presidência de uma das maiores empresas de moda da Colômbia, a Ecomoda. Logo de moda!

De outro lado, uma empresa familiar de onde seu fundador, Roberto Mendoza, se retira para gozar sua aposentadoria, deixando em seu lugar, seu egocêntrico filho, Armando Mendoza. A família Mendoza fundou a Ecomoda junto com a família Valencia. O casal Valencia, tendo se acidentado fatalmente, passa a ser representado por seus filhos, o arrogante Daniel, que disputa a sucessão da empresa com Armando, Marcela, a noiva de Armando e a desligada Maria Beatriz, que apenas goza dos polpudos cheques mensais que recebe por sua participação. Na disputa pelo comando da empresa, Armando levou a melhor sobre Daniel, e agora precisa levar a cabo um plano cujas metas são bastante ambiciosas. Ele conta com seu amigo e aliado Mario Calderón.

Neste momento, iniciam a seleção da nova secretária de Armando Mendoza. Marcela, sabendo da fama de conquistador de seu futuro marido, indica sua belíssima amiga Patricia Fernandez para o posto de secretária, principalmente para que “vigie” Armando em suas escapadas. Certo disso, Armando incentiva a contratação de Betty, que, afinal de contas, tem muito melhor curriculum do que Patrícia, e, diga-se de passagem, do que de quase todos na empresa. Ao fim, para não se indispor com a noiva, Armando contrata Patrícia, mas Betty é quem, entre outras atividades, cuidará de sua agenda pessoal, e o auxiliará com os balanços da empresa. Patricia é bonita, mas não muito inteligente, e faz uma boa antagonista para Betty.

Beatriz Pinzón Solano, aos poucos se revela excelente profissional, além de fiel escudeira de Armando, sempre salvando sua pele, seja de Marcela, a noiva ciumenta, seja de Daniel, quando encobre os erros sucessivos que seu chefe comete em sua administração para permanecer na presidência. Betty então conquista plenamente a confiança de Armando. Tanto que, num momento em que a empresa está a ponto de ser embargada por conta da desastrosa gestão do seu presidente, este faz uma jogada legal, porém nada ética, passando a empresa para o nome de Betty. Totalmente, nas mãos de sua agora assistente, Armando teme pelo que possa ocorrer, e incentivado por seu amigo Calderón, inicia um jogo de sedução com Betty.

Percebi que muitas pessoas assistem à novela muito mais do que uma vez só. E um dos motivos, creio, é tentar observar em que momento exatamente Armando se apaixona de verdade por Betty. Sim, porque isso ocorre, e antes da transformação da “feia” em “cisne”. Só que Armando demora a se dar conta disso, e este, digamos, “bloqueio” do executivo se dá, exatamente, por conta da aparência de Betty. E é aqui que iniciam as minhas questões.

O ponto de partida é o fato de que o mundo, sim, fecha as portas àqueles considerados “feios”. Ainda que sua capacidade esteja acima da média, é preciso cavar duramente uma chance para poder se provar. Segundo o historiador Arthur Marwick, aos considerados “belos”, o mundo oferece mais oportunidades. Isso já foi comentado em outro post. O amor de Armando esbarra numa aparência que ele mesmo rechaça, fechado em seu mundo de supermodelos. Mas o que faz de Betty uma mulher “feia”? Em uma passagem da novela Betty diz: "Da proxima vez que quiser conhecer uma mulher realmente interessante, faça-o com os olhos fechados". Com este comentário Betty quer dizer que os olhos julgam muito antes dos ouvidos.

Autores que se dedicam a pensar sobre a moda e a beleza, como Marwick, Etcoff e Calanca concordam num ponto. Moda e beleza muitas vezes geram confusão. E Betty é um exemplo disso. Ela tem um cabelo diferente, com uma franja armada, usa um modelo de óculos que esconde seus olhos, possui pêlos no rosto, com sobrancelhas que se emendam por sobre o nariz e um buço que nunca viu uma cera de depilação ou mesmo uma pinça em toda a sua vida. Para completar, usa incômodos aparelhos dentários e roupas nada adequadas ao ambiente de trabalho, especialmente numa empresa de moda. Sua aparência esta fora dos padroes considerados de beleza na sua cultura. O figurino da novela deixa duvidas. Mas me interesso mais especificamente pelo figurino de Betty. As ombreiras grandes, típicas dos modelitos executivos das décadas de 1980 e 1990 estão lá, e se fazem fortemente presentes na imagem de Betty porque são exageradas. Roupas largas, compridas, com estampas que pouco lhe favorecem são acompanhadas de meias brancas ou escuras e sapatilhas. Betty, ao fim, não é feia, é inadequada.

Etcoff sinaliza para traços no rosto que são universais para evidenciar o que percebemos como beleza – o rosto redondo, o nariz pequeno, olhos grandes, simetria e proporção. Betty tem tudo isso. Suas amigas do chamado “quartel das feias” sofrem do mesmo mal. Cada uma delas possui um tipo físico marcante. Uma é muito alta, outra, muito baixa, uma terceira é negra, há uma gordinha, uma idosa e uma última, belíssima, que apenas peca pelo excesso de sensualidade ao escolher suas roupas gerando a percepção de vulgaridade.

Num dado momento, durante o seu jogo de sedução, Armando se irrita com os vizinhos de Betty que a provocam chamando-a de feia, e parte para briga. Betty então percebe que seu chefe, um amor antes platônico, de fato se interessa por ela. E por isso, decide sozinha “cambiar el look”. Foi um desastre total. Sem querer amargar-lhe a vida, suas amigas do “quartel” não comentam nada sobre a sua mudança, mas perguntam como ela escolheu o tal novo “look”. Suas explicações mostram a insegurança de uma mulher, que, encerrada em um lar conservador e mergulhada nos estudos, não teve acesso à pedagogia da moda. O que estava na moda, para ela, não lhe assentava. Por isso, pouco mudou o cabelo, mantendo a franja e criando cachos ao redor do rosto. Visitou uma loja considerada moderna pelas amigas, mas ao fim, optou por comprar roupas na loja em que sua mãe comprava. Ali ela estava em sua zona de segurança. Mudar e ousar poderia ser perigoso. Finalmente, seu desafeto Daniel Valencia não teve dúvidas ao humilhá-la discorrendo sobre sua aparência e frisando a importância de uma boa apresentação numa empresa que vende moda. Betty se dá conta do equívoco e Dom Daniel, sim, tinha lá suas razões. Betty não era mais secretaria (e mesmo que ainda fosse), era uma executiva de uma empresa que vende moda. E a moda é um elemento chave para transformar as aparências, para contribuir para uma imagem que desperte a boa impressão dos outros. Betty entendeu o recado.

Com a ajuda de uma amiga com alguma expertise sobre as aparências, e, justamente durante um concurso de Miss Colômbia na cidade de Cartagena, Betty se transforma. Ela havia saído da Ecomoda e agora trabalhava com alguém que a respeitava e admirava por sua inteligência e integridade. Mas o mais inteligente da novela é que sua transformação não precisou de muitos recursos. Renunciou à sua franja, tirou os pelos do rosto e, principalmente, mudou o figurino, para algo mais leve, cores em tom pastel, modelos mais bem talhados para o seu corpo. Agora sim, Betty estava “adequada”. Embora ainda conservasse a pesada armação dos óculos e o aparelho dentário, já despertava emoção pelas ruas. Foi “coqueteada” por desconhecidos pela primeira vez em sua vida.


À direita a atriz Ana Maria Orozco, e à esquerda sua caracterizaçao como Betty.

Seu retorno à Ecomoda foi triunfal. Por percursos que só os bons autores de novela fazem e nos convencem, Betty tornou-se presidente da Ecomoda e tinha pela frente a árdua missão de recuperar o ponto de equilíbrio da empresa. Sua estratégia de vendas fora elaborada com base na sua própria experiência de vida. Agora, considerada uma mulher atraente, bonita, e até sexy, Betty decidiu mudar a imagem das amigas do “quartel das feias”, criando modelos mais adequados, escolhendo cores que favorecessem a percepção de uma boa imagem para as moças. Por fim, decidiu colocar em suas lojas vendedores especialmente treinados para oferecer às suas clientes “feias” aquilo que lhes caisse melhor no corpo, criando uma imagem harmoniosa. Este tipo de profissional lhe fizera falta quando decidira “cambiar el look” solita.

Seus argumentos com o vaidoso estilista da Ecomoda foram contundentes. É muito fácil vestir uma mulher que já é considerada linda. Ou seja, em mulheres como Gisele Bünchen, por exemplo, qualquer trapo cai bem. Ela não precisa da roupa adequada e da moda como aliados. O maior desafio de um estilista é criar modelos que favoreçam as não “Giseles”, ou seja, desafortunadamente, a maioria da população. Para uma empresa que precisava gerar volume de vendas, não poderia haver melhor estratégia. Saludos a todos!

terça-feira, 13 de julho de 2010

Guarda-roupa Zero (materia da L'Officiel Junho/2010)



Imagem da materia publicada na Revista L'Officiel (junho/2010)

Este post teve a colaboração da amiga jornalista Flávia Mendonça, que escreve para a Revista L’Officel (entre outras publicações).

Flávia me abordou para conversarmos sobre o tema que iniciei no meu último post. Pensando no consumo consciente do vestuário, a jornalista me apresentou duas propostas. Uma delas, o blog The Great American Apparel Diet que propõe a compra zero de novas roupas durante um ano. O blog é usado como “confessionário” pelas seguidoras do movimento para que troquem informações sobre a experiência. A matéria publicada pela L’Officiel diz o seguinte: “segundo uma das fundadoras do diário, a americana Sally Bjornsen, o objetivo da dieta é que as participantes tentem refletir e entender o que acontece quando ficam tanto tempo sem nada novo no guarda-roupa. ‘Muitas delas antes de participar do projeto, gastaram grande parte do seu tempo planejando e preparando gavetas. E boa parcela dessas preocupações são motivadas, normalmente, pelo que elas querem e não pelo que realmente precisam’”.
A segunda proposta é passar 365 dias com o mesmo modelo de vestido. Esta idéia foi lançada em Londres, em maio de 2009 por Sheena Matheiken e Eliza Starbuck, e se chama The Uniform Project.




A matéria de Flávia foi publicada na edição de junho de 2010 na Revista L’Officiel, e, evidentemente, editada. Aqui, reproduzo na integra, a entrevista que fizemos para dar suporte à sua matéria.

Flavia: Por que você resolveu estudar o consumo de mulheres de classe média da zona Sul do Rio de Janeiro?

Solange: Flávia, esta é uma longa história. Trabalhar com a linha de pesquisa “consumo” dentro da Antropologia me pareceu um caminho natural, já que venho da área de marketing e já trazia comigo uma larga experiência em empresas. Dentro da academia, no entanto, tudo começou com o luxo. O projeto inicial para a minha dissertação de mestrado seria investigar a idéia de luxo entre a classe média carioca. Naquela época (entre 2004 e 2005) havia estudos recentes sobre a expansão do luxo para os segmentos médios da população na França e nos Estados Unidos. Por aqui começaram a surgir publicações periódicas específicas sobre luxo, onde se percebia certa “pedagogia” sobre os usos dos produtos, como que para novos entrantes neste mercado. De lá prá cá muitas matérias foram publicadas sobre o comércio de bens considerados de luxo na cidade de São Paulo, principalmente por conta a inauguração da nova Daslu, em 2005. A curiosidade sobre o tema luxo entre os cariocas da classe média me levou a uma pesquisa inicial – realizei entrevistas em profundidade com cerca de 30 pessoas. Cheguei a conclusão que o luxo entre os cariocas possuía inúmeras representações, mas muitas delas, negativas. O uso ostensivo de marcas e grifes consideradas de luxo, por exemplo, não eram bem visto pelo grupo. O luxo, que eu chamaria de “positivo” para este grupo de pessoas, tinha relação com os bairros em que viviam – todos da Zona Sul do Rio de Janeiro -, e com o estilo de vida (sair do trabalho e ir à praia no verão, poder viajar para um país estrangeiro nas férias, comer bem, entre outras coisas). Assim, ficou uma pergunta: se essa classe média não se interessa por ostentar marcas e grifes como representações do luxo tal qual a mídia repercute, o que lhes interessa em termos de vestuário? Dada a estreita relação das mulheres com o vestuário achei que seria mais proveitoso dali em diante focar a minha pesquisa neste gênero.

Flávia: Pode falar um pouco sobre como tem sido essa experiência?
Solange: Já que eu deveria falar sobre o consumo de vestuário entre as mulheres da classe média carioca, decidi visitá-las e conhecer de perto seus armários e como se relacionavam com as roupas. Assim, pude esboçar algumas classificações sobre critérios de escolha e formas de uso. Além disso, comecei a empreender caminhadas pelas ruas e visitas a algumas lojas de bairros da Zona Sul localizados próximos à orla – Leme, Copacabana, Ipanema, Leblon – fazendo preciosas anotações sobre o papel da roupa no esquema de sociabilidade dos bairros escolhidos.


Armario de uma entrevistada de 62 anos, moradora de Copacabana. Foto: Solange Mezabarba

Flávia: O que já deu para notar dessa pesquisa? Como agem e pensam essas mulheres?
Solange: Flavia, não há uma resposta única para esta pergunta. De início é preciso que tenhamos em mente que o consumo de roupas tem uma estreita relação com o que se quer comunicar sobre si. Mas o indivíduo não atua sozinho nas suas escolhas, então essas decisões se darão em torno das interações cotidianas que as pessoas fazem. Somados a isso aparecem o gosto pessoal, as formas de acesso, as disposições pessoais. Por exemplo, quando perguntadas sobre o que escolhem quando precisam ir a uma cidade como São Paulo. As respostas variam de acordo com o que cada mulher espera das interações que teriam na capital paulista. Para uma reunião de negócios, onde se espera ser bem sucedida, há um cuidado todo especial na escolha, e a expectativa de que o ambiente a ser visitado pede maior formalidade do que ela está acostumada por aqui. Inconscientemente essa mulher sabe que a roupa “errada” pode representar um risco para a sua reputação profissional. Já a estudante que precisou passar uma temporada na USP fez questão de dizer que queria ir com as suas roupas bem informais, ou aquelas “hippies de boutique” como ela mesma classificou, para reafirmar a diferença identitária como uma carioca entre paulistanos, e assim comunicar e reafirmar a sua origem. Outra, que iria ao chá de panela da amiga em São Paulo se sentiu impelida a escolher uma roupa mais formal, coisa que não faria num chá de panela aqui no Rio. Ao chegar lá, percebeu que a sua escolha havia sido equivocada. Sentiu-se deslocada com aquelas mulheres paulistanas vestidas bem à vontade ao seu lado. Por isso te digo que o tempo todo estamos considerando as nossas interações diárias e controlando as nossas impressões. Usamos para isso a nossa percepção sobre o que os outros esperam ou deveriam esperar de nós, e nem sempre queremos agradar. E nem sempre acertamos. Valemo-nos do consumo para isso. Querer acertar, na minha opinião, é o que especialmente rege a escolha do vestuário entre essas mulheres da classe média.

Flávia: No ano passado surgiu o Uniform Project - blog em que uma indiana usa o mesmo vestido o ano todo com diferentes acessórios para arrecadar fundos para uma instituição de ensino em seu país. Você acha que a mulher brasileira é capaz de repetir o mesmo modelito diversas vezes, mudando apenas os acessórios, pois ela adquiriu uma consciência e consumo cujos valores estão usar/comprar uma quantidade menor de roupas?
Solange: Depende. Creio que no Rio de Janeiro, por exemplo, usar um vestido básico com diferentes acessórios durante um ano, não seja assim tão complicado. Não o mesmo vestido. Já em São Paulo, as interações são diferentes, e isso afeta o modo como as pessoas se vestem, mais elaborado do que em geral se vê no Rio. Talvez lá fosse mais difícil. Mas se eu descobrisse uma mulher brasileira agindo como a indiana, não pensaria de imediato em consciência de consumo. Este é um movimento ainda muito pequeno entre as mulheres brasileiras, e, principalmente, confuso. Por exemplo, entre as minhas alunas da pos-graduação (moças com alto nível de escolaridade) já ouvi sobre o rodízio de roupas – um grupo de amigas que têm o corpo parecido compra uma dada quantidade de peças, e realizam trocas entre elas. Mas não vejo esta atitude como parte de um projeto de consumo com consciência, e sim, por motivos econômicos, ou seja, para aumentar suas opções gastando menos. Muitas brasileiras ainda estão na fase das experimentações (da moda, do luxo, das marcas) e o consumo consciente (que não deixa de ser também um critério de escolha), ainda é uma prática restrita a um pequeno grupo de mulheres.

Flávia: Outro sinal interessante é o Great American Apparell Diet - um blog no qual pessoas se comprometem a não comprar roupas por 1 ano e lá relatam as dores e as delícias dessa decisão. Você acha que as brasileiras são capazes de parar de comprar roupas e acessórios de moda por um ano em prol de uma causa?
Solange: Comprar roupas, para as mulheres, envolve muitos aspectos, como o lado lúdico de experimentar novidades nas cabines, o prazer de olhar as vitrines e se imaginar com determinada peça, o auto-presente que pressupõe uma compensação por alguma obrigação realizada com sucesso, ou mesmo a busca por uma imagem adequada a determinada situação. Pensar em ficar um ano sem comprar roupas, seria abrir mão desses momentos de prazer, e correr o risco de se ver inadequada numa dada ocasião. Por exemplo, uma moça com quem conversei havia se casado recentemente com um homem bem mais velho. Sentiu-se por isso impelida a comprar roupas que fossem mais adequadas para freqüentar eventos sociais na companhia do seu marido, já que em seu armário predominavam minissaias jeans, calças justas e de cintura baixa, blusas baby looks, batas, enfim, roupas que se adequavam ao estilo de vida que tinha antes de se casar. Ou seja, um novo fato em sua vida desencadeou nela a preocupação com novos critérios de escolha para suas roupas. E sua inquietação se transformou em experimentações. Imagina se ela estivesse comprometida com um projeto como esse durante este período da sua vida?
Por outro lado, deixar de comprar roupas durante um ano levaria essas mulheres a usar a sua criatividade para inventar diferentes composições com aquilo o que possuem dentro do armário. Acho que, dependendo da causa, algumas brasileiras seriam sim capazes de enfrentar o desafio. O fato de haver o blog pode criar nelas a sensação de que não estão sozinhas, e isso é muito importante para levar adiante o projeto. Mas não me surpreenderia se, passado um ano, muitas delas se “presenteassem” por terem vencido o desafio, renovando o armário de uma só vez.

Flávia: Você acredita que existe uma preocupação ética ou social no consumo dessas mulheres que está pesquisando. Quais seriam esses valores?
Solange: Flavia, noto que o discurso sobre consumo sustentável está cada vez mais forte entre as mulheres da classe média. Mas percebo também muitas dúvidas sobre como pôr em pratica esses valores. Em geral elas falam sobre o “descarte consciente”, mas raramente sobre “consumo consciente”. Explico. Parece que todas sabem que precisamos separar o lixo, devemos pensar em reciclagem, não desperdiçar água no dia-a-dia. Mas poucas se dão conta de que os bens são produzidos de alguma maneira, e uma vez produzidos, estão no ambiente. Há uns meses um antropólogo inglês me pediu informações locais sobre o consumo de “jeans ético”. Comecei por pesquisar a produção de tecidos considerados “éticos” para entender melhor o conceito. Deparei-me com inúmeras dúvidas por parte dos técnicos que consultei: os tecidos “éticos” são os que pressupõem economia de água na produção, ou será que são aqueles que usam material reciclado, mas que precisam de água em abundância em seu processo produtivo? O tecido classificado como biodegradável, ou seja, considerado bom para o descarte, pode precisar lançar mão de tratamentos químicos, o que implicaria a circulação de resíduos químicos no ambiente. O que é mais vantajoso do ponto de vista ecológico? Por fim, será que o jeans considerado “ético” deveria ser aquele feito para durar muito e evitar a compra freqüente, ou aquele mais barato produzido por uma comunidade de costureiras do interior demonstrando preocupação social? Entre as consumidoras a confusão é ainda maior. Na verdade, o que eu posso afirmar é que, embora haja uma preocupação em manter o discurso do “consumo sustentável”, na prática, o que observo é que, para as mulheres que pesquiso, esse critério de escolha ainda não chegou à categoria vestuário.


Jeans - muito presente nos armarios, mas a preocupaçao e maior com o estilo do que com a sustentabilidade. Foto: Solange Mezabarba


Flávia: Você conseguiria viver 365 dias usando apenas um modelo de vestido? Se sim, como faria?
Solange: Um mesmo modelo, ou um mesmo vestido? Um mesmo modelo creio que seria possível. Cores neutras e diferentes acessórios poderiam aliviar o meu cansaço visual. Mas admito que não é fácil. Uma vez viajei pela Europa por três meses, visitando diversos países com uma pequena mala. Trazia poucas roupas (e quase nenhum acessório) para facilitar o meu deslocamento. Ao chegar em casa, me desfiz de todas elas, pois não as agüentava mais. Imagine um modelo só! Portanto, talvez, ao final de uma experiência como essa me sentisse um pouco estressada com a energia empregada para adaptar o modelo a diferentes ocasiões, temperaturas, interações. Por outro lado, o processo cotidiano de escolha se torna mais simples. O mesmo vestido, jamais. O Rio de Janeiro, onde vivo, é demasiadamente quente em determinadas épocas do ano.

Flávia: E ficar um ano sem comprar roupas? Quais são as suas motivações no ato de comprar uma peça de roupa?
Solange: Pessoalmente sou muito apegada às minhas roupas. Demoro muito a me desfazer delas. De vez em quando “ressuscito” uma ou outra peça que estava esquecida no armário. Mas por tudo o que já expus pra você, como mulher, devo reconhecer que o ato de comprar também me proporciona prazer em alguma medida. Quase sempre me sinto motivada a comprar roupas em alguma ocasião especial. Por exemplo, quando viajo, gosto de levar roupas novas. Quando volto de viagem, gosto de trazer roupas novas. Quando inicio um trabalho novo gosto de comprar peças novas. Mas creio que conseguiria sim passar um ano sem comprar roupas. Tenho um bom acervo em casa, será preciso apenas uma dose extra de criatividade.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Roupas com consciencia


Corantes naturais usados na produçao artesanal da comunidade de Chincheros - Peru. Foto: Solange Mezabarba

No início do ano entrei em contato com o Professor Daniel Miller da University College London para saber sobre a pesquisa que vem empreendendo sobre consumo do jeans em diversos países. Em sua resposta ele mencionou a categoria “jeans ético”. Numa rápida pesquisa de escritório, verifiquei que algumas marcas já mostram preocupação em elaborar um produto considerado ético, entre elas, a popular Levi’s , e o sofisticado nome de Carlos Miele.

“Consumo ético”, “consumo consciente”, “consumo sustentável” são expressões que são cada vez mais pronunciadas por consumidores que se esforçam por mostrar o quanto se preocupam com o planeta. O antropólogo argentino Nestor Canclini, em seu livro “Consumidores e Cidadãos” (publicado no Brasil pela Editora UFRJ) faz algumas observações importantes acerca do tema. É importante a noção de que o consumo também nos possibilita a atuação como cidadãos, ou seja, ao consumirmos determinados itens, de determinadas maneiras sinalizados nossas opiniões, marcamos posições políticas e mostramos o nosso engajamento em causas sociais. Também é importante a noção de que a globalização dos mercados cria uma relação em que o que consumimos aqui e agora, afeta outras pessoas em outras localidades.

A mídia, num esforço até pedagógico, vem se encarregando de informar as pessoas sobre a importância do descarte consciente, da reciclagem, da economia de recursos não renováveis, da preservação da água, da preservação do meio ambiente, da economia solidária, do consumo de alimentos saudáveis. Mas, e o vestuário? Como o consumo das roupas vem sendo pensado pelos usuários em seu papel de “consumidores conscientes”? Quando o Professor Miller mostrou seu interesse pelo tema dos “jeans éticos”, recorri aos técnicos do Cetiqt para entender o que tem sido feito na indústria têxtil brasileira para incluir o vestuário na agenda da sustentabilidade. As respostas que obtive, mais me confundiram do que esclareceram. O que passa é que há uma confusão muito grande sobre os critérios para tornar uma peça considerada ética ou sustentável. Assim, o técnico com quem conversei colocou algumas questões interessantes. Ético sob que ponto de vista? Isso porque operacionalmente eles mesmos se deparam com dilemas. Pode-se pensar em tecidos éticos do ponto de vista do plantio de matérias-primas para a produção, do processo de produção sem efluentes químicos, do descarte, da conservação, dos corantes. O processo de produção que privilegia uma vantagem ecológica pode incorrer em uma desvantagem. Ou seja, o uso de determinadas matérias-primas consideradas biodegradáveis pode demandar o gasto maior de água na produção. Há, então, que se fazer opções. O que podemos chamar de tecido ético? Aquele que dura mais e por isso não exige a reposição constante? Bem, estamos falando de moda, e a moda pressupõe a reposição constante no guarda-roupas. Ou será que o tecido ético é o que é feito com matéria prima biodegradável e que pode ser descartada como um saco de papel sem qualquer peso na consciência?
Consumir é efetuar escolhas, e o modo consciente de consumir vem provocando muitas dúvidas. A Revista Época em sua edição de outubro de 2007 publicou uma matéria intitulada “como é difícil ser verde”, onde discorre sobre a dificuldade dos europeus em conciliar o que consideram “politicamente correto”, com seus hábitos de consumo no cotidiano, seu estilo de vida, e seus gastos diários. De fato, não é nada fácil. A matéria faz alusão, por exemplo, a alguns conflitos morais, e ilustra com um caso. Alguns supermercados começaram a etiquetar alimentos que foram transportados por avião, e portanto, deram a seus clientes a oportunidade de escolher o alimento que prejudicou menos o meio ambiente. Mas, neste caso, produtores africanos seriam prejudicados, o que, indiretamente, contribuiria para o aumento da pobreza naquele continente. Por conta de dilemas como este, segundo a matéria, para manter sua imagem de consumidor ético e continuar com o mesmo estilo de vida e sem conflitos de consciência, muitos europeus mentem.

Outra matéria publicada na Revista Veja de outubro de 2007, traz na imagem de capa o modelo da consumidora consciente. Ela usa calça de algodão orgânico feita a mão, sandálias com sola de pneu reciclado, camiseta de fibra reciclada, bolsa de fibra natural, tem um só filho que usa fralda de pano e consome alimentos orgânicos. Conversei com uma amiga italiana especificamente sobre o caso das fraldas. Ela me contou que viajou com o filho para a Itália quando o menino tinha apenas um mês. Isso só foi possível, segundo ela, por causa do “grande invento da fralda descartável”. Ou seja, a mudança definitiva para a fralda de pano traria às mães alguns inconvenientes aos quais elas não estão mais acostumadas. Ou seja, mudar a forma de consumo pode implicar mudanças mais profundas no comportamento e estilo de vida. E isso não é nada fácil. O consumo de roupas não é o resultado de um só critério, de uma só forma de consumir. Existem muitas implicações que pesam na nossa escolha final. O consumo ético, sustentável, consciente do vestuário é só uma das formas, e, por aqui, ainda encontra pequena adesão.

No próximo post mencionarei duas possíveis formas de consumo consciente no que se refere ao vestuário.

terça-feira, 25 de maio de 2010

O Panama do Equador

Mulher artesã em Cuenca, Equador, tecendo uma peça. Foto: Dyan Galleani / Francisco Alegre.


Este post foi escrito com a colaboração da amiga chilena Dyan Galleani, que esteve comigo no Equador em 2009.

Nas minhas últimas idas ao campo – pelas ruas da zona sul carioca, percebi que os Chapéus Panamá entraram na ordem do dia. Não importa a idade ou a roupa que se está usando – o acessório parece combinar com tudo e com todos. Ainda não vi chapéus nas lojas da cidade, mas os camelôs, sempre muito ligados no que acontece na cidade, já expõem seus “Panamás” pelas calçadas do Rio de Janeiro.

O Chapéu Panamá, para nós, cariocas, se incorporou ao imaginário da cidade ao compor a figura do “malandro”. Terno de linho branco e o chapéu formavam a imagem típica desse personagem do início do século XX. A obra de Chico Buarque – A Ópera do Malandro – encenada tanto no teatro quanto no cinema, não deixa dúvida no figurino. Lá está o chapéu na cabeça do Max Overseas.

O curioso é que o “Chapéu Panamá” é um acessório de origem equatoriana. Ele vem das culturas que habitam as cidades de Cuenca e Montecristi.

Maquina da fábrica de sombreros de Cuenca. Foto: Dyan Galleani / Francisco Alegre

Cuenca é uma cidade histórica, a terceira maior do país, atrás de Guayaquill e Quito. Fica a mais ou menos meia hora de vôo da capital, Quito. Patrimônio da Humanidade, Cuenca começou a ser erguida ainda antes da chegada dos espanhóis, por povos locais, e mais tarde tomada pelos Incas. Os espanhóis a batizaram de “Santa Ana de los quatro rios de Cuenca”.

O Chapéu Panamá, originalmente se chama “sombrero de palla torquilla”, pois é feito com uma palha extraída de uma palmeira nativa. Eram os índios equatorianos que o utilizavam para se proteger do sol e do calor. O chapéu faz parte da tradição artesanal local, é feito à mão e suas tramas podem ser tão finas que são capazes de tornar o chapéu totalmente à prova d’água.

Em exposição na fábrica de chapéus, imagem de homem cortando a fibra usada para a confecção dos sombreros. Foto: Dyan Galleani

O chapéu faz parte da indumentária das mulheres Cholas, que vivem nesta região do país. Chola é a denominação para mulheres mestiças tanto no Peru quanto no Equador. A chola cuencana é uma mulher mestiça camponesa, e que se veste de forma peculiar. Elas usam blusas de algodão bordadas, saias de lã em tons fortes e uma manta de tecido fino, com desenhos denominados Ikat – ou feitos com o contraste entre as partes tingidas e não tingidas do tecido. Na cabeça, tranças e chapéu de palla torquilla, ou jipijapa, ou o nosso conhecido Chapéu Panamá.

Mulheres Cholas no mercado em Cuenca. Sua indumentária típica inclui o Chapéu Panamá. Foto: Dyan Galleani / Francisco Alegre.

O nome Panamá se deve ao fato de os trabalhadores do famoso Canal do Panamá terem utilizado o chapéu de palla trujilla durante o trabalho. O Equador exportou milhares deles durante as obras. O Canal do Panamá começou a ser construído em 1880.
O Panamá, nesta época era território colombiano. A companhia que iniciara o projeto faliu quatro anos depois do início das obras. Em 1903 o presidente norte americano Roosevelt negociou a intervenção do seu país para dar sequencia à obra, num episódio bastante polêmico que resultou na independência do Panamá onde já havia um movimento separatista anterior às obras do canal. Em troca, o controle do canal esteve nas mãos americanas até 1999. Na ocasião em que os Estados Unidos assumiram a obra, o Presidente Roosevelt foi fotografado usando o chapéu, numa imagem planejada que demonstrava a parceira e solidariedade com os trabalhadores locais. Isso ajudou a popularizar o acessório.


Loja da fábrica de chapéus em Cuenca. Foto: Dyan Galleani / Francisco Alegre

Comprar um chapéu original em Cuenca, no entanto, não é para muitos. O preço pode variar de 200 até 1000 dólares.
Mas os camelôs cariocas pedem bem menos – pode-se adquirir um por até vinte reais. Mas, claro, o Chapéu Panamá original, aquele feito com palla trujilla tem tramas e acabamento de alta qualidade.

Chapéu com características do Chapéu Panamá encontrado na escola de moda no RJ. Foto: Solange Mezabarba


Encontrei ao acaso um modelo na escola onde eu trabalho. A cara até pode ser de um legítimo Panamá do Equador, mas a finalização do objeto é muito diferente daquela observada nos modelos de Cuenca. A originalidade e a cópia – o modelo que não é o “verdadeiro”, mas compõe uma imagem... esse é um bom assunto para um outro post.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Casacos nas vitrines de outono no Rio de Janeiro


Inverno na Suiça. Isso sim é que é frio. Haja casacos! Foto: a autora do blog em Gstaad (Suiça),foto de Andreas Stuker.

Quem reparou primeiro foi a minha amiga Thays. No Facebook ela sentenciou, usando uma frase parecida com:“não sei pra quem as lojas estão vendendo tanta roupa de frio”.

Os habitantes do Rio de Janeiro vivenciaram um dos verões mais quentes das últimas décadas. Diziam os especialistas que só o verão de 1984 superou o de 2010 em temperaturas. Não me lembro do verão de 1984, mas tenho a sensação de que o de 2010 ainda lança seus efeitos outono afora.

O outono do Rio de Janeiro, na minha opinião, é a estação do ano mais bonita. A luminosidade favorece àqueles que se aventuram a fotografar a cidade, as praias não ficam tão lotadas, e o calor... bem... é claro que nada se compara aos 42 graus do verão carioca, mas neste outono, as temperaturas durante o dia podem ser conferidas nos relógios digitais ao longo da cidade – variam entre os 25 e os 30 graus. Ou seja, ainda assim, faz calor.

Pelas ruas observo o caminhar das mulheres, e como estão vestidas. Blusas de alça, camisetas, shorts, bermudas, vestidos leves. O vestuário das ruas cariocas de outono não difere muito daquele do verão, ao menos durante o dia. À noite podemos apreciar o desfile de blusas com manga comprida, casacos jeans, cardigãs ou casaquinhos de tricô.

Em minhas visitas à casa das mulheres com quem converso sobre a minha tese, algumas vezes encontro em seus armários casacos pesados, mas elas logo justificam: “é para quando eu viajo para o exterior”. Viagens ao exterior é uma das formas de consumo que caracterizam as mulheres dos segmentos médios do Rio de Janeiro. Portanto, a presença de casacos de lã, ou parcas forradas, luvas e outros apetrechos de frio é compreensível em seus armarios.


Armario de uma mulher, 40 anos, moradora da Zona Sul do RJ. Reparem no número de casacos! Foto: Solange Mezabarba

Voltando ao que nos oferecem as lojas de roupas femininas neste outono. Minha amiga tem razão. O que vemos parece incompatível com o que se observa nas ruas.


Vitrine de uma loja em Copacabana. Roupas elegantes. Dentro da loja, os casacos mais pesados. Foto: Solange Mezabarba

Nesta semana estive numa loja de Copacabana, onde sempre compro peças de vestuário para mim. Sua vitrine não diferia muito de outras que encontrei ao longo do caminho. Havia casacos de toda sorte, alguns deles feitos de lã, forrados. Não há como negar a beleza e o bom acabamento das peças. Confesso até que fiquei tentada a comprar um deles. Quando, após me identificar como pesquisadora e antropóloga, fiz a observação sobre os casacos e a temperatura carioca, a gerente entendeu que eu estava criticando ou fazendo uma observação negativa sobre a loja. Por isso, fez questão de enfatizar que as vendas estavam indo muito bem, obrigada. Mas, quando insisti no meu ponto, ela colocou alguns argumentos para defender a venda dos seus produtos: a temperatura caiu nas últimas semanas, houve o dia das mães, houve uma cliente (uma cliente!) que comprou para viajar para Curitiba, e por fim, uma argumentação de cunho mercadológico, seus produtos possuem muito bom preço por benefício (leia-se percepção de qualidade dos tecidos e acabamento). A foto que ilustra este post, sequer fazem jus à observação da loja. Foram fotos furtivas, pois a gerente não me permitiu fotografar as peças do lado interno da loja, muito mais pesadas do que o que se vê na foto.

Voltei para casa refletindo sobre tudo isso, e cada vez que me deparava com alguém usando camisetas de alcinha, ou vestidos leves, lembrava os casacos da loja onde sou cliente.


Nao tive autorizaçao para fotografar as roupas dentro das lojas, mas ai vai uma ideia da vitrine. Foto: Solange Mezabarba

Em minhas reflexões, encontrei algumas hipóteses sobre o comportamento das mulheres cariocas em relação aos casacos pesados de lã e outros materiais próprios para temperaturas muito baixas.

Comecei com uma das observações da gerente da loja, a compra de casacos para viagens. Eu mesma já havia feito isso inúmeras vezes, principalmente quando se tratava de viagens internas, pelo Brasil, a localidades mais frias como a Região Sul. Quando viajo para a Suiça, principalmente no inverno europeu, é inútil buscar por aqui algo que garanta o aquecimento do corpo numa temperatura que pode chegar a 10 graus abaixo de zero. Melhor comprar por lá, ou pedir emprestado. Assim, o simples cálculo econômico, ou seja, a idéia de custo e benefício, se usarmos a racionalidade, pode ficar comprometida.


Lembrando das conversas e entrevistas que faço, pensei no quanto a mulher carioca pode ter, no fundo, o desejo de se vestir de uma maneira mais afeita a climas mais frios. E facil encontrar que observer que no Rio de Janeiro, "é só chover um pouquinho que todos os cariocas saem às ruas com casacos cheirando à naftalina". Seria mesmo o desejo inusitado de pôr para fora do armário aquele casaco lindíssimo que compramos por um preço incrível na liquidação de inverno do ano passado? Bem, meu marido suíço, portanto acostumado a baixíssimas temperaturas, reclama do inverno carioca. A umidade provoca uma sensação térmica que faz a gente sentir mais frio do que acusam os termômetros, que raramente descem abaixo de 18 graus. Assim, não pode ser só a vontade implícita de mostrar o lindo casaco que trouxemos da Argentina na nossa última viagem. Mas, casaco da Argentina? Talvez a mulher carioca busque um frio elegante como oportunidade para fugir do lugar comum. Por isso, peças com a cara da elegância européia confeccionadas com a textura, a gramatura e o peso adequado ao inverno carioca, possam ser uma boa opção. Mas, auto lá. Melhor esperar pelos nossos “dois meses” (ou menos) de inverno. Afinal, o outono carioca ainda pede roupas de verão.

Quem tem uma opinião diferente?

terça-feira, 20 de abril de 2010

"Rituais de Arrumação" em Ipanema


Ipanema - Foto: Solange Mezabarba

Numa entrevista que fiz com uma mulher, moradora de Ipanema, ouvi a seguinte observação: “aqui (em Ipanema) a gente demora muito para se arrumar para parecer desarrumado”. Esta fala faz alusão a um código das ruas e o esforço de enquadrar-se nele. Este discurso mostra o valor do casual, ocasional, ou o que mais se pareça com a indiferença pela moda. Mas o que fica escondido aqui é exatamente o esforço do “ritual de arrumação”. A idéia é mostrar que há um desprendimento desta prática, que, na verdade, nao acontece. Grant McCracken (2003) é o antropólogo norte-americano que assinala a importância deste ritual para que novos significados sejam atrelados aos bens. No nosso caso, à roupa. Mas será que é assim mesmo como diz a minha informante? Algumas caminhadas pela famosa Rua Visconde de Pirajá poderão nos mostrar algumas coisas.


Calçadas da Visconde de Piraja - Foto: Solange Mezabarba

Comparadas com as calçadas da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, em Copacabana, as calçadas de Ipanema, também comportam diversidade, diferentes sotaques, diferentes idades, diferentes níveis sociais, porém são mais largas, com menor número de pessoas circulando e o calçamento mais firme. Esses são elementos que nos dão a sensação de haver menor tensão pelas ruas de Ipanema. Uma das primeiras coisas que se nota ao observar as mulheres que circulam por ali é a sua postura corporal. Nota-se um andar lento, espaçado, calculado, uma postura menos relaxada, a coluna mais reta. Uma postura que nos remete ao corpo tratado ou trabalhado, a um aprendizado específico sobre o modo de andar e gesticular. As roupas parecem de certa simplicidade, o que, em principio, poderíamos classificar como básicas. O que se classifica como roupa básica no Rio de Janeiro é, em geral, o jeans e a camiseta lisa monocromática. Ou, igualmente a saia e a blusa sem manga. Mas ainda que o “básico” sinalize para uma aparência homogeneizada entre os moradores locais, as roupas aqui classificadas, não raro, se distinguem pela etiqueta famosa.

Há, aparentemente, em comparação com Copacabana, menor número de roupas de malha colorida circulando, e sim, uma profusão de acessórios. Os chapéus de Panamá, ora em voga, podem ser observados pelas ruas do bairro. Poucas são as mulheres que circulam com chinelos de borracha. Mais comuns são as sandálias rasteiras, e é possível observar mais mulheres usando salto. Combinações como short jeans com óculos escuros (com marca famosa e modelo da moda) e sapatilhas também são comuns.
Outra fala interessante de uma moradora de Ipanema, com 39 anos:“... visto uma blusinha e uma saínha...”. O uso do diminutivo no discurso pressupõe pouca preocupação na hora da escolha, ou a simplicidade da peça que irá usar. Porém, o que se vê nas ruas é um diálogo com as vitrines das lojas de moda e com elementos que aparecem nas revistas – como, por exemplo, os modelos de calça comprida jeans tipo “boy-friend” e “cenoura” (que raríssimas vezes apareceram em Copacabana). Ipanema hoje não “inventa” moda, mas segue a moda querendo parecer uma forma casual de opção. Isso se reflete no short e camiseta acompanhados de uma bolsa de marca famosa, ou uma sapatilha de boa qualidade, ou um par de óculos escuros de griffe famosa com modelo da moda. Essa é uma das estratégias imagéticas compatíveis com os códigos das ruas de Ipanema.


Bolsa Louis Vuitton de uma informante de Ipanema. Foto: Solange Mezabarba

Entre as mulheres mais velhas, percebe-se o esmero de sua produção para as ruas. Neste grupo, é comum o uso de jeans com camisa de botão. A postura ereta, como já mencionada entre as mulheres de modo geral, chama a atenção entre as mulheres mais velhas. Percebe-se o cuidado na escolha de acessórios e maquiagem. Em Copacabana também percebi algumas mulheres acima de 60 anos usando maquiagem, em geral, optando por tons mais avermelhados no batom e no blush. Em Ipanema elas usam uma maquiagem mais clara, tons mais puxados para a cor da pele, a cor da boca. Mesmo nos dias em que circulei por entre as feiras livres que ocorrem semanalmente na Praça General Osório (terças-feiras) e na Praça Nossa Senhora da Paz (quintas-feiras), percebi que as mulheres mais velhas circulam por ali cuidadosamente vestidas – vi chapéus, lenços, bijuterias e maquiagem leve.


Assim em Ipanema observam-se complementos que revitalizam uma ou outra roupa – o penteado, a maquiagem, os acessórios. Isso sinaliza para a prática do “ritual de arrumação”, ainda que o discurso teime em valorizar a despreocupação com este esforço. Ou seja, o discurso da saída casual de casa, se depara com elementos na rua que colocam em cheque esta prática. Parece que a informante observou bem.